Tsunami: pai que perdeu 3 dos 4 filhos tenta recomeçar

25 de março de 2008 • 10h43 • atualizado às 10h43

Roger Cohen

São Paulo


Jerome Philipon, diretor executivo da Bollinger, venerável produtora do melhor champanhe do mundo, cresceu em uma fazenda da Picardia. Quando menino, ele costumava encontrar restos de batalhas da Primeira Guerra Mundial: fivelas de cintos, capacetes, fragmentos de granadas.

As relíquias o fascinavam, ao evocar o distante mundo do massacre entre franceses e alemãs. Mas ele jamais esperava ver com seus próprios olhos uma triagem de mortos.

"Eu me vi subitamente em um mundo que antes só havia imaginado", conta Philipon. "Corpos enlameados e ensangüentados chegando em picapes e sendo separados diante de mim e de minha mulher ¿os mortos à esquerda, os sobreviventes à direita."

Enquanto Philipon recorda essa cena pós-tsunami, estamos acomodados a uma mesa de madeira em uma bela sala no coração da região de Champagne. Abaixo de nós, quilômetros de porões abrigam 14 milhões de garrafas. Em torno de nós, colinas repletas de plantações de belas uvas pinot noir vicejam.

Tudo aponta para raízes: a safra 2007 só estará à venda em 2016, porque é preciso quase uma década para que a fruta e a acidez encontrem seu perfeito equilíbrio.

Tumulto e equilíbrio: não é fácil combinar imagens de morte e devastação, de um lado, e perseverança determinada, de outro. Mas, se me coubesse tentar, eu diria que, depois de perdas inimagináveis, abrimos mão dos supérfluos e, orientados por um instinto que nos guia, retornamos ao essencial.

A existência moderna nos dispersa. Talvez sejam necessárias tragédias para que nos concentremos de novo. A modernidade gira em torno do eu. Talvez sejam precisas perdas para que voltemos a pensar em servir o próximo.

Em 24 de dezembro de 2004, Philipon, então executivo da Coca-Cola em Bancoc, chegou ao hotel Sofitel da praia tailandesa de Khao Lac, com sua mulher, Florence, e os quatro filhos do casal: Mathilde, 8 anos; Charles, 7 anos; Auguste, 4 anos; e Octave, 1 ano.

As crianças haviam nascido nos diversos lugares da Ásia a que o trabalho de Philipon o havia conduzido. Ele sentia ter rompido os grilhões dos pesados hábitos franceses.

E então veio o tsunami. Depois de tomarem café da manhã juntos em 26 de dezembro, os membros da família se dispersaram. Florence e Mathilde subiram para o quarto; as três crianças menores foram com a babá ao Kid's Club, na praia, e Philipon foi para a academia do hotel se exercitar.

Ele estava na esteira rolante quando viu pessoas correndo, e depois a muralha de água. Saltou da máquina enquanto as janelas de vidro explodiam; a onda o apanhou e contorceu como se "eu estivesse dentro de uma máquina de lavar gigante". Philipon terminou lançado contra uma picape, e imaginou que era assim que tudo terminaria, mas a onda o arrastou até uma palmeira, à qual ele se agarrou.

Quando a água recuou, ele voltou ao hotel e encontrou sua mulher e filha, que tinham se protegido no teto. Eles foram ao Kid¿s Club, uma ruína repleta de cadáveres.

Philipon não encontrou seus filhos. Foram precisos seis meses para que os cadáveres dos três fossem recuperados. A coisa mais difícil para ele continua a ser imaginar o que essas crianças poderiam ser agora.

"Mas tínhamos de recomeçar, e ao saber que a vida pode ser curta, realmente saber, descobrimos que o importante é fazer o que se ama", diz.

Philipon e sua mulher encontraram força - em sua fé católica, em suas raízes, em sua volta à França. Em outubro de 2006, eles tiveram um filho, Constantin, e no ano passado uma filha, Penelope. "Agora", ele afirma, "temos três na terra e três no céu".

Na quarta-feira, ele diz, Constantin terá a idade que Octave tinha ao morrer. Como na adega da Bollinger, o passado se entretece no presente e futuro. O equilíbrio é tudo; e a coragem é a mais silenciosa e eloqüente das virtudes.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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