O pai de uma das vítimas do tratamento hormonal de crescimento segura uma faixa de protesto |
"E o pior é que ela não sofria de nenhuma patologia", recorda a mãe da menina, Francine Delbrel, com amargura."Isso nos fere ainda mais, porque nossos filhos não sofriam de doença alguma. Eram apenas um pouco menores do que a média das crianças". Os primeiros sintomas de problemas apareceram quando Bénédicte completou 18 anos, em 1990. Angústias súbitas, repetidas, incompreensíveis, que se alternavam com uma gripe interminável. Mas foi em 1992 que a doença foi verdadeiramente deflagrada.
Era verão, e a jovem começou a apresentar problemas de equilíbrio, seguidos por distúrbios de fala e visão. Os médicos suspeitavam de uma esclerose, mas essa hipótese foi descartada. Os problemas musculares se acentuaram, e o corpo de Bénédicte começou a escapar ao controle do cérebro, "como ela estivesse possuída". "Era apavorante", relembra Francine.
Para os médicos, a doença de Bénédicte era um enigma. Os pais da jovem a levaram a numerosos especialistas, e ela passou por sessões de terapia familiar a conselho de psiquiatras, que mencionavam a possibilidade de "histeria". Ao final das discussões entre os médicos, Bénédicte foi internada em uma unidade psiquiátrica para adolescentes. O estado da jovem se degradou rapidamente, e os pais foram proibidos de visitá-la.
O diagnóstico da doença surgiu de maneira fortuita. Bénédicte perguntou a outro paciente, pequeno como ela, se havia tomado hormônio de crescimento. O jovem, que já havia ouvido falar dos riscos de transmissão da Síndrome de Creutzfeldt-Jako por meio de hormônios, imediatamente percebeu a conexão.
"Quando o diagnóstico foi confirmado, e eu compreendi que ela morreria, surgiu um vazio na minha vida", recorda a mãe de Bénédicte. "Eu não conseguia lembrar de nada - quem eu era, onde estava". Bénédicte morreu algumas semanas mais tarde, em 4 de maio de 1993, em Bordeaux, aos 21 anos.
Indignados, seus pais imediatamente se associaram como interessados ao inquérito penal sobre o caso. Ao longo do processo, conheceram muitas outras famílias de crianças prejudicadas pelo uso de hormônio de crescimento, em reuniões organizadas por Bernard Kouchner no Ministério da Saúde. Juntos, os pais criaram uma associação com o objetivo de informar o público sobre o caso.
Em 2002, a associação publicou um livro que relata os problemas causados pelo hormônio do crescimento e o papel que a France Hypophys, uma organização semipública, desempenhou na difusão desse tipo de tratamento.
O julgamento do processo, que se inicia hoje em tribunal de Paris, leva Francine Delbrel a esperar tudo e nada a um só tempo. Ela quer confrontar "face a face os responsáveis pelo drama, ouvir como explicam essa aberração", mas duvida que o processo tenha resultados concretos.O que Delbrel espera, acima de tudo, é que o caso traga paz a ela e a outros parentes de vítimas. "Nunca os perdoarei pelo sofrimento moral de minha filha. Nunca", ela repete. "Só um processo nos permite superar o ódio que nos impede de viver até hoje".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde