Barack Obama, sua mulher Michele e a apresentadora Oprah Winfrey em comício em Columbia |
Corine Lesnes
Estados Unidos
Quando se trata de Oprah Winfrey, a rainha dos programas de entrevista femininos, a tentação é colocar o leitor em guarda: o texto será um retrato róseo. É difícil escapar a isso. Oprah mesma não se cansa de se fazer retratar em rosa - ou pelo menos em lilás, a cor da toga que vestiu para a inauguração de sua escola para meninas da África do Sul, a Oprah Winfrey Leadership Academy for Girls, um estabelecimento que recebe crianças vítimas de agressões ou que tenham perdido seus pais em função da violência ou Aids.
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A vida de Oprah combina o rosa e o negro. Nascida no Mississipi, filha de uma empregada doméstica que a teve aos 16 anos e não queria ter filhos, Winfrey quase reproduziu a trajetória de sua mãe, mas perdeu o bebê que esperava aos 14 anos. São detalhes que ela mesmo divulgou - a violação aos nove anos de idade, as fugas. Passados 30 anos, Oprah informou todos os detalhes às suas espectadoras. Seu passado, seu regime, aquilo que a faz sofrer, aquilo que ela ama. Oprah nada tem a esconder, e não sente necessidade de esconder detalhes de sua vida privada. "Se eu fosse homossexual, lhes diria".
Oito milhões de telespectadores, principalmente mulheres, acompanham o "Oprah Winfrey Show" todas as tardes, adeptos daquilo que o colunista Frank Rich, do New York Times, definiu como "a igreja de Oprah".
Para seu público, ela é amiga, irmã, vizinha que conquistou o sucesso. Sempre repleta de bons conselhos, sempre positiva ("engordar não é fatal"). Quando tudo vai mal, ela oferece às espectadoras um kit para "consertar sua confiança em vocês mesmas". Seu mais recente conselho: votem em Barack Obama, o senador democrata pelo Illinois que está disputando a indicação presidencial democrata.
No programa de Oprah, as pessoas se estendem. É como um divã, o reino dos bons sentimentos. Ela conta tudo, mas o entrevistado também precisa falar, porque isso lhe fará um grande bem. Maureen Dowd, jornalista do New York Times, a classifica como "rainha da empatia". Depois de ganhar um concurso de Miss Tennessee, aos 17 anos, Oprah foi contratada por uma TV de Baltimore. Sua carreira como jornalista não estava indo bem, porque ela costumava chorar quando as notícias eram tristes. Por isso, foi transferida para a seção de entretenimento.
Oprah, 54 anos, está bilionária (segundo a revista Forbes, ela é a "primeira bilionária negra do mundo"). Depois de fazer seu primeiro milhão aos 32 anos, seu patrimônio atual é da ordem de US$ 1,5 bilhão, o que a coloca ao lado de J.K. Rowling, a autora dos livros de Harry Potter, no primeiro escalão entre as fortunas femininas do planeta.
De vez em quando, Oprah presenteia as espectadoras de seu programa. Em outubro, ela decidiu distribuir às 314 espectadoras envelopes contendo US$ 1 mil e uma câmera de vídeo. A missão que lhes deu era doar o dinheiro e filmar as reações ao fazê-lo. Os vídeos foram exibidos no programa. É o sistema Oprah: doar gera novas imagens que alimentam novas doações.
Até 1996, o programa de Oprah se concentrava em fofocas sobre televisão e celebridades. Mas ela um dia decidiu que não queria continuar vivendo assim, e por isso o "Oprah Winfrey Show" se converteu no império do bem. A apresentadora se lembrava de ter lido a Bíblia aos três anos, e de mais tarde ter se refugiado nos livros para encarar uma infância de pobreza no Mississipi de sua avó, no gueto de Milwaukee onde sua mãe se instalou, ou no Tennessee, em que seu pai trabalhava como barbeiro. Oprah decidiu por isso criar um clube de leitura, que logo se tornou imensamente influente. Ela levou milhões de norte-americanos a ler não só Toni Morrison como "Anna Karênina".
O império de Winfrey depende inteiramente de sua imagem. A revista do grupo, O (de Oprah) a mostra na capa todos os meses, de janeiro a dezembro - em traje de noite, roupa de exercício, pijama de cetim. Dois milhões de norte-americanos adquirem a revista a cada mês.
Oprah é a mulher mais rica dos Estados Unidos, e apóia Obama. Antes, não havia se envolvido em política, mas abriu exceção quanto à escolha do candidato democrata este ano. Em dezembro, subiu ao palanque com ele em Iowa, Carolina do Sul e New Hampshire. Seus discursos pareciam hesitantes. Ela invocou o "sonho" de Martin Luther King. Mas apesar dos anos de experiência em TV, parecia um pouco intimidade no palanque, ao declarar que "no plano mais profundo, nós somos a América. Nós somos a América com nossas esperanças e sonhos".
Em dezembro, estreou "The Great Debaters", filme produzido por Oprah e interpretado e dirigido por Denzel Washington, que tem por base uma história real: o concurso de retórica entre a Universidade de Wiley, uma instituição negra do Texas, e uma escola branca. Washington, que faz o papel do professor de retórica da equipe, inspira os alunos com um verso do poeta negro Langston Hughes: "Eu também sou a América".
Oprah controlava os direitos cinematográficos do livro original há 10 anos. Difícil não ver essa história de triunfo negro sobre a injustiça e a adversidade, lançada em momento tão oportuno, como um hino à candidatura Obama. A sede da produtora de Oprah fica em Chicago, a cidade do senador. Os dois se conhecem há muito, e ele é presença regular nas páginas de sua revista.
Oprah nasceu em 1954, o ano em que a Corte Suprema norte-americana tomou sua histórica decisão de encerrar a segregação nas escolas. E ela não se cansa de relembrar o caminho percorrido. Em maio, em discurso de final de ano letivo na Universidade Howard, uma instituição negra de Washington, ela relembrou como sua avó, que era empregada doméstica, a aconselhava a trabalhar para "brancos que sejam gentis com você". A avó de Winfrey morreu em 1963. "Lamento que ela não tenha sobrevivido para me ver crescer e encontrar brancos muito gentis que trabalham para mim".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde