Imigrantes salvam as aulas de religião na Espanha

09 de janeiro de 2008 • 15h06 • atualizado às 15h06

Josep Playà Maset

Espanha


Graças aos imigrantes, o número de alunos que participam voluntariamente das aulas de religião sobre o catolicismo não só se manteve como cresceu ligeiramente nos últimos anos no sistema escolar catalão, especialmente em certos bairros e cidades da Catalunha. É o que constata uma recente pesquisa qualitativa conduzida pela Federação dos Professores de Religião da Catalunha (Ferc).

Os dados mais recentes da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), referentes ao ano letivo de 2006/7, indicam que três em cada quatro alunos opta por assistir a aulas de religião, no país. O relatório divulgado pela comissão de ensino e catequese da CEE em fevereiro do ano passado revelava uma ligeira queda, de 0,4%, no número de estudantes que optaram por esse curso, no ano passado. Na escola primária, mais de 80% dos alunos participam das aulas de religião; no ensino secundário, o total cai a 50% nas escolas públicas e a 69% nas escolas privadas.

Dadas as dimensões desses números nacionais, o impacto da imigração é pequeno, e só perceptível em Madri e na região da costa mediterrânea. Mas os números nacionais não se aplicam à Catalunha, onde a sociedade e as escolas vêm passando por um processo de secularização muito mais intenso nos últimos anos. Menos de metade dos alunos das escalas catalãs optam por assistir às aulas de religião, e essa porcentagem se deve em larga medida à presença de um largo número de escolas católicas nas quais, em termos práticos, participar das aulas de religião é obrigatório.

Nas escolas públicas primárias, apenas 32% dos alunos participam das aulas de religião, na Catalunha, e o índice se reduz a apenas 15% nas escolas secundárias. Já em 2000, diante da persistência dessa queda, os professores de religião da região organizaram um movimento para alertar contra o desaparecimento do ensino religioso na região. Mas a situação melhorou, posteriormente.

Nas escolas onde existem alunos imigrantes, especialmente os latino-americanos, é perceptível um aumento na demanda por aulas de religião católica, mesmo que as famílias dessas crianças se declarem membros de outras religiões. A pesquisa da Ferc serve para ratificar essa constatação.

As aulas de religião parecem apropriadas aos imigrantes, e eles não se importam que elas girem em torno de uma determinada modalidade de religião. Em algumas escolas, de fato, as aulas de religião e as de cultura religiosa, que deveriam ser ministradas por professores de história ou filosofia, terminam se confundindo, diz Bernat Villaronga, da Ferc.

Maïsa Noguera, professora de religião do IES Milá i Fontanals, de Barcelona, sinaliza com toda naturalidade que "em minhas aulas temos alunos latino-americanos mais próximos das religiões evangélicas, e meninas paquistanesas e marroquinas de tradição muçulmana, algumas das quais assistem às aulas usando véus".

Susana Vila, vice-presidente da Ferc, considera que "a aula de religião se converteu, em muitos centros, em um instrumento de integração, e mais, em um dos poucos espaços da escola em que existe debate real entre os alunos imigrantes e os locais". A afirmação, surpreendente, é confirmada por outros professores, na pesquisa citada. "Ninguém gosta de dizê-lo porque é politicamente incorreto", afirma um deles. "Mas a integração nem sempre funciona. Pode-se perceber o fato nos pátios das escolas, onde os alunos imigrantes se agrupam em turmas por nacionalidade, se colocam em pontos separados e ocasionalmente se envolvem em confrontos com outros grupos".

"Para a maioria dos imigrantes, a religião é parte da identidade, e isso é perceptível", disse Villaronga. Já para os católicos, "é uma opção mais pessoal".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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