Desde que o caso surgiu, o nome de Arigona é presença constante nos pronunciamentos de políticos, nos comentários de intelectuais e nas conversas das pessoas. Alguns defendem a menina, e outros falam contra ela. O pano de fundo da crise é a ausência de uma legislação ágil para assuntos de imigração e asilo político, já que as pessoas que solicitam o status de asilados ao governo austríaco precisam esperar por até cinco anos para obter uma resposta.
O ponto culminante do caso surgiu em 14 de dezembro, quando o ministro do Interior austríaco, o conservador Günther Platter, negou o pedido de residência de Arigona. O ministro, conhecido por uma interpretação restritiva do direito de asilo político, alegou que "as precondições para residência na Áustria não foram cumpridas". A família de Arigona chegou à Áustria em 2002, com a ajuda de traficantes, depois que sua casa foi queimada pelos sérvios em 1999.
Desde então, todos os pedidos de seus familiares por um visto de residência foram rejeitados. Ainda assim, a família encontrou espaço e se integrou em uma pequena cidade ao norte do país. O pai trabalhava e os filhos estavam estudando. Depois que todos os prazos legais se esgotaram, a família terminou detida e expulsa do país este ano ¿ com a exceção de Arigona, que fugiu e se escondeu. Ao receber a promessa de que não seria retirada do país contra a sua vontade, voltou à escola e começou um duelo contra o governo que continua até hoje.
O ministro do Interior afirmou que "as razões econômicas que existem para que eles não vivam mais em Kosovo não podem representar um critério para admitir esta família à Áustria". Ainda assim, ele autorizou Arigona a concluir seus estudos básicos em uma escola austríaca. O curso será concluído este ano.
"Não quero ser um obstáculo à formação desta jovem", disse Platter, acrescentando que "desejo garantir que ela conclua seus estudos obrigatórios". Mas a menina prefere continuar vivendo na Áustria, e pretende estudar para ser cabeleireira.
A situação provocou grande indignação popular. Diversos intelectuais e representantes de organizações humanitárias anunciaram, em artigo publicado pelo jornal Der Standard, sua disposição de enfrentar até a prisão em defesa das pessoas que estão no país ilegalmente. "Um país que deportou mais de 120 mil pessoas em 60 anos deve hoje desenvolver uma política humanitária", afirmou o escritor Robert Schindel.
"A atitude de Platter é não só anti-social como contrária aos valores cristãos", disse Alexander Van der Bellen, líder do partido verde, em uma manifestação que reuniu quase 10 mil pessoas em Viena. A maior crítica, no entanto, veio do primeiro-ministro austríaco. O social democrata Alfred Gusenbauer, como que refletindo em voz alta, afirmou a uma rádio austríaca que, embora o ministro do Interior tenha aplicado devidamente a lei, "muitos austríacos se perguntam por que seria preciso expulsar uma jovem integrada ao país, que fala nosso idioma e quer ficar aqui para trabalhar, enquanto o ministro do Comércio viaja para a Índia em busca de mão-de-obra qualificada".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia