Bru Rovira
Quênia
Kibera, com seus mais de 300 mil habitantes e 30 etnias amontoadas em um espaço minúsculo, é só um dos símbolos do novo Quênia, jovem país nascido há apenas 50 anos como resultado da revolta mau mau - um grupo guerrilheiro formado principalmente pela etnia kikuyu -,que forçou a independência, levando ao poder o também kikuyu Jomo Kenyatta, em eleições organizadas pela potência colonial.
Como me contou Shara, que vive na parte alta de Kibera, o bairro nasceu com os núbios do Sudão que vieram ao Quênia combater como guerrilheiros contra o exército britânico, na época da independência, e se assentaram no local, conhecido como "o bosque". Logo, e pouco a pouco, Kibera começou a crescer até se transformar no bairro multiétnico atual.
O filme "O Jardineiro Fiel" mostra a miséria do bairro, no qual o alcoolismo e a Aids causam estrago e a pobreza estrutural destruiu as culturas tribais baseadas na autoridade dos clãs sobre os jovens, enquanto o sistema tradicional de vida no campo se desgastava e deixava de oferecer um padrão reconhecível de sociedade aos novos moradores urbanos.
Como Kibera, existem em Nairóbi outros 200 subúrbios miseráveis. No total, cerca de três milhões de pessoas vivem em espaços que representam apenas 5% da área urbana. É essa a proporção da justiça social que existe nesse jovem democracia, cujo crescimento econômico vem atingindo a marca dos 5% anuais mas cujos avanços em termos de democracia representativa são ínfimos (até hoje, só membros das etnias kikuyu e kalenyin governaram o país); o mesmo pode ser dito sobre a divisão da riqueza, e a corrupção vem sendo uma enfermidade permanente para os ocupantes da presidência e ministros.
Na verdade, esta não é a primeira ocasião em que a violência étnica toma o país. Em 1992 e 1997, surtos de agressões entre as etnias causaram centenas de mortos, e os conflitos continuam a se repetir, seja nas regiões agrícolas empobrecidas pela seca, onde as tribos lutam por acesso a água e terras, seja nos subúrbios, onde os jovens têm oportunidades escassas.
Os mortos da igreja de Eldoret servem como alerta, por seu simbolismo brutal e sua evocação do que aconteceu no passado recente em Ruanda, mas esse fogo não deveria nos chegar quanto à distância que existe entre a cabeça de um taco de golfe e a bola branca que repousa sobre a lama em Kibera.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia