Brian Handwerk
Estados Unidos
Dois mergulhadores completaram o mais longo mergulho entre duas cavernas submarinas, em uma traiçoeira jornada de 20 horas de duração que provou que as vastas redes subaquáticas de cavernas da Flórida estão conectadas.
Jarrod Jablonski e Casey McKinlay mergulharam em uma pequena caverna chamada Turner Sink, na tarde de 15 de dezembro, e logo desceram a uma profundidade de cerca de 100 m.
Eles percorreram 11,2 km por cavernas submarinas cheias de água doce - desfrutando de um "passeio incrível", de acordo com McKinlay - antes de retornar à superfície na manhã de 16 de dezembro, no parque estadual de Wakulla Springs, perto de Talalhassee, Flórida.
Os dois demoraram seis horas para realizar a travessia de caverna a caverna, e tiveram de passar por mais de 14 de horas de descompressão gradual antes que pudessem retornar à superfície.
Mas os mergulhadores fizeram muito mais que simplesmente estabelecer um recorde. A serviço do projeto Woodville Karst Plain, os dois realizaram pela primeira vez uma travessia que prova a conexão dos sistemas de cavernas Wakulla Springs e Leon Sinks. Os cientistas já haviam provado teoricamente que existia conexão entre as cavernas, alguns meses atrás. O objetivo do projeto é mapear a planície de Woodville Karst, uma região de 1,15 mil km quadrados que se estende de Tallahassee ao golfo do México.
"A caverna Leon Sinks, aparentemente isolada no meio de um matagal, na verdade tem conexão hidrológica com esse incrível recurso cultural e ambiental, o sistema de Wakulla Springs", disse McKinlay.
"As pessoas enfrentam dificuldade para perceber a conexão entre as duas coisas, e era isso que esperávamos provar, simbolicamente".
Caverna mais longa
O sistema de cavernas Leon Sinks, que os mergulhadores do projeto vem explorando há 20 anos, é a mais longa caverna subaquática explorada regularmente no Estados Unidos, e a quarta mais longa no mundo.
Ela também é parte de um imenso labirinto líquido que representa uma fonte essencial de água subterrânea para boa parte da porção norte da Flórida.
O mergulho recorde forçou a dupla a enfrentar passagens muito estreitas (algumas das quais com apenas 3x3 m), e os levou a atravessar cavernas imensas, de altura suficiente para acomodar edifícios inteiros.
"Nós atravessamos um dos mais incríveis sistemas de cavernas que existe em qualquer lugar", disse McKinlay. Mas não foi um mergulho simples. Durante a segunda metade, a visibilidade se reduziu de cerca de 15 metros para apenas um metro e meio.
"Nós dobramos a esquina da caverna Wakulla e as condições eram piores do que esperávamos, o que nos retardou. Mas conseguimos prosseguir", disse McKinlay.
Havia equipes de assistência para apoiar a missão dos mergulhadores nos dois extremos do percurso. Mas a porção central do mergulho incluía um treco de cerca de cinco quilômetros de comprimento que nenhum mergulhador havia tentado no passado.
"Sempre uso a analogia de que é como poder levitar em meio ao Grande Canyon, observando algumas das mais belas paisagens naturais do planeta", afirmou Jablonski.
Os riscos do mergulho
A equipe utilizou alguns sistemas especiais para reduzir os riscos de um mergulho assim extremo.
Os mergulhadores dispunham cada qual de cerca de 20 tubos de gás, abastecidos com misturas gasosas diferentes para diferentes profundidades. Também tinham seis veículos subaquáticos diferentes, e dois sistemas distintos de reciclagem de ar, que permitem conversar o oxigênio.
"E tínhamos de estar preparados para a possibilidade de continuar o mergulho mesmo que perdêssemos alguns desses recursos", disse Jablonski.
Kelly Jessop é presidente da seção de mergulho em cavernas da Sociedade Espeleológica Nacional (NSS) dos Estados Unidos.
"Estamos falando de tempos totais de mergulho e descompressão da ordem de 20 horas. É uma jornada muito, muito significativa", afirmou Jessop. Ele também está familiarizado com condições que podem reduzir dramaticamente a visibilidade sem grande alerta.
"Não é uma boa sensação, quando a visibilidade cai rapidamente a zero, porque você basicamente se agarra à linha (de nylon que os mergulhadores estendem) e percebe a escuridão que o cerca".
Mergulhos extremos também causar profundo desgaste fisiológico. Problemas com os sistemas de reciclagem de ar podem resultar em falta fatal de oxigênio (hipóxia), excesso de oxigênio (hiperoxia), ou excesso de dióxido de carbono (hipercarbonia).
"O outro problema fisiológico real em mergulhos como esse é a de que não existem dados científicos firmes para determinar a descompressão requerida", disse David Sawatzky, médico e escritor canadense que trabalhou como consultor de mergulho para as forças armadas.
"Ainda assim, o grupo envolvido tem bastante experiência no cálculo das necessidades de descompressão em diversos perfis de mergulho, adquirida por tentativa e erro".
A caminho do golfo
Quase duas décadas de exploração abriram caminho para o mergulho histórico, disse Jablonski.
"A caverna costumava nos enviar na direção errada",ele disse. "Por isso, quando enfim saímos da água hoje eu estava pensando nos milhares de metros de linha que deixamos para trás ao longo dos anos".
A equipe espera a seguir explorar o sistema de cavernas rumo ao sul, até sua união com o Golfo do México ¿uma distância de 13,5 quilômetros em linha reta.
Uma parte do trabalho do projeto Woodville Karst Plain é mapear os sistemas de cavernas subaquáticas da região, compreender seu papel nos aqüíferos e proteger suas águas contra a poluição.
O hidrologista Tood Kincaid, diretor científico do projeto, disse que conscientizar a população sobre a existência do sistema de cavernas é uma realização mais emocionante do que estabelecer um recorde mundial.
"Para mim, o significado fundamental é demonstrar que essas cavernas existem, até que ponto elas estão presentes e de que maneira geram conexão entre porções diferentes da bacia subaquática", ele afirmou.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
National Geographic