Martin Plichta
França
A República Checa pode vir a se tornar uma das principais fontes da metanfetamina consumida na Europa, de acordo com um relatório produzido pela seção européia da agência de combate às drogas das Nações Unidas, sob o comando do alemão Thomas Pietschmann.
Nos Estados Unidos, surgiu uma explosão no consumo desse tipo de droga, nos últimos anos. A fabricação do Pervitin, produzido com a marca de um medicamentos utilizado no exército alemão da era nazista para estimular o desempenho dos soldados, se tornou uma especialidade checa e ganhou escala européia, o que incomoda as autoridades encarregadas de combater o tráfico de drogas.
Já há diversos anos a República Checa vem registrando o maior número de consumidores de maconha com idade inferior a 24 anos, e de dependentes de metanfetaminas, na Europa. De acordo com o relatório do Comitê Governamental de Combate aos Tóxicos tcheco para 2007, 28% dos cidadãos de entre 15 e 24 anos de idade declararam ter fumado maconha em 2006, e dos 30 mil tchecos dependentes de drogas pesadas, 20 mil recorreram ao Pervitin.
Essa variedade de metanfetamina é produzida localmente. Em 2006, a polícia checa conseguiu neutralizar 416 pontos de produção de Pervitin, ante apenas 19 em 2000. No curso dos sete últimos anos, as autoridades do país apreenderam 135 quilos de metanfetaminas. "Se a alta parece exponencial, ela oculta uma evolução no tipo de instalação de produção desmantelada", diz Bretislav Brejcha, analista da brigada de combate a drogas da polícia nacional checa. "Os locais fechados pela polícia são em sua maioria pequenas unidades com volume de produção máximo de uns poucos gramas de droga".
"Mas mesmo assim a produção total e a quantidade de droga que chega ao mercado não cresceram na mesma proporção", ele pondera. "Não acredito que a República Checa venha a se tornar um centro de produção e distribuição de metanfetaminas para o restante da Europa", diz Brejcha, ainda que quadrilhas desbaratadas já tenham sido identificadas como envolvidas em casos de tráfico para a Alemanha e a Áustria.
Nos últimos anos, o número de locais de produção desmantelados vem crescendo. Em 2007, foram localizadas e fechadas cerca de 360 "cozinhas" de drogas, de acordo com cifras provisórias do governo - ou seja, uma média de uma por dia. Instaladas em garagens ou em pequenos apartamentos, elas alimentam pequenas redes de tráfico, o que torna mais difícil descobri-las. "Quando conseguimos fechar uma dessas cozinhas, logo surgem três outras", constata Brejcha, com um gesto de impotência.
A luta contra a produção do Pervitin recebe apenas 60% dos esforços da brigada policial de combate a drogas, ante 30% dedicados a reprimir a maconha, a droga mais difundida no país. Os tchecos se tornaram verdadeiros mestres na produção de cannabis, com plantações domésticas em floreiras de janela e hangares inteiros transformados em estufas, onde iluminação artificial permite a elevação do teor do princípio ativo da maconha, o THC, em cada planta. Brejcha considera que esse desenvolvimento no cultivo local da maconha fez da República Checa um país quase auto-suficiente no que tange a esse tipo de droga.
Ainda que um defensor da descriminação da maconha tenha acabado de assumir um posto no governo tcheco - Ondrej Liska, do Partido Verde, que ocupa a pasta da Educação -, a brigada de combate a drogas da polícia está tentando convencer os parlamentares do país a tornar mais difícil o acesso aos materiais precursores usados na produção de drogas. As metanfetaminas são produzidas hoje com base em remédios contra a gripe vendidos livremente e sem restrições nas farmácias. Trata-se de medicamentos que contêm pseudo-efedrina, recuperada por meio de processos químicos relativamente fáceis de dominar.
Essa droga, que é usada pelos toxicômanos dependentes em forma injetável e pelos usuários ocasionais por via nasal, custa entre 500 e 1,2 mil coroas (18 e 45 euros) por grama. É bastante mais barata que a cocaína (2,5 mil coroas, ou 95 euros, por grama), e compartilha de muitas das propriedades euforizantes desta última.
Depois do fechamento de uma fábrica de efedrina em Roztoky, uma cidade na periferia norte de Praga, em 2002, parte de cuja produção legítima era desviada ilegalmente por alguns funcionários e servia como fonte de abastecimento aos produtores de Pervitin, as vendas de remédios que contêm pseudo-efedrina dispararam, e o número de cozinhas de drogas localizadas quadruplicou em apenas um ano.
Brejcha espera que a venda desses medicamentos seja em breve regulamentada por uma nova lei; "Não deveria mais ser possível adquirir dezenas de vidros de remédios como esse, com completa impunidade", ele afirma. Os membros do Legislativo tcheco, fiéis às suas idéias ultraliberais, hesitam seriamente em impor regulamentação, e podem optar, como acontece no caso de medidas legislativas referentes a outras drogas, por uma formulação que não restringirá demasiadamente as atividades dos farmacêuticos.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Le Monde