NY: crimininalidade atinge menor nível desde 1963

26 de dezembro de 2007 • 09h56 • atualizado às 10h02

Marc Bassets

Estados Unidos


A Nova York dos anos 70 ficou para trás. Muito para trás. Era uma cidade boêmia, selvagem e violenta. Em alguns bairros, eram comuns tiroteios à luz do dia. Tratava-se da Nova York de American Gangster, o mais recente filme de Ridley Scott e um dos sucessos da atual temporada de cinema, e narra a história (real) de Frank Lucas, um chefe negro do crime organizado e comandante do tráfico de heroína no bairro do Harlem. Para muitos dos atuais moradores de Nova York, a cidade do passado é quase uma lenda, objeto de fascinação e repulsa simultâneas.

Se faltava alguma coisa para pôr fim definitivo à imagem de uma Nova York convulsa e perigosa, como era o caso 20 ou 30 anos atrás, os mais recentes dados da polícia da cidade sobre homicídios dirimem qualquer dúvida. Em 2007, caso não aconteça uma explosão implausível de violência nos dias que faltam até o final do ano, Nova York terá registrado menos de 500 homicídios, o número mais baixo desde que estatísticas confiáveis começaram a ser registradas, em 1963. E, além disso, este ano só 35 homicídios foram cometidos por criminosos desconhecidos das vítimas. É um total ínfimo, como apontou o jornal New York Times, para uma cidade de 8,2 milhões de habitantes.

O recorde - de queda - de homicídios confirma uma tendência surgida no começo da década passada, depois que 2.245 pessoas foram assassinadas em 1990. Em Barcelona, cidade de 1,6 milhões de habitantes, houve 192 homicídios em 2006, de acordo com a Justiça do Estado.

A queda no número de homicídios em Nova York, que ao longo dos anos 90 deixou de ser uma das cidades mais perigosas e se tornou uma das mais seguras dos Estados Unidos, terminou convertido em ponto de propaganda e disputa na campanha presidencial. O candidato que lidera nas preferências dos republicanos, Rudolph Giuliani, foi prefeito da cidade entre 1994 e 2002, e diz que parte do mérito pela redução nos crimes cabe a ele. "Criminalidade recorde, sonegação de impostos, um milhão de pessoas vivendo com assistência do governo. Nova York era assim até que Rudy chegasse. Na cidade mais esquerdista dos Estados Unidos, Rudy realizou sua missão. E poderá voltar a realizá-la em Washington", diz um dos comerciais de campanha do pré-candidato Giuliani.

O mérito todo cabe a ele? Há quem duvide. No livro Freakonomics, por exemplo, o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Duebner demonstram que a queda na criminalidade já havia começado no início da década de 90, antes que Giuliani fosse eleito prefeito. Os progressistas de Nova York têm uma relação ambivalente com o antigo prefeito, como explica artigo recente da revista New Yorker. Quando o mandato dele se encerrou, as mesmas pessoas que se sentiam incomodadas com sua retórica dura também se sentiam gratas por ele ter transformado Nova York em uma cidade mais habitável.

Nova York se tornou mais habitável e segura, mas também mais cara, mais pretensiosa, mais asséptica. Talvez isso explique uma nostalgia visível em filmes como American Gangster, no qual o criminoso Frank Lucas é exibido com uma auréola de astro pop, envolto em saudade de uma era que ninguém deseja que regresse realmente.

Tradução: Paulo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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