Justiça mexicana absolve governo por agressão a jornalista

06 de dezembro de 2007 • 14h47 • atualizado às 14h47

Joëlle Stolz

México


A Corte Suprema mexicana refutou a existência de um complô sustentado pelas autoridades contra a jornalista que havia denunciado a existência de redes de pornografia pedófila e identificado seus protetores, mas o caso Lydia Cacho continua a causar abalos no México. Cerca de dois anos depois do tratamento brutal infligido à jornalista que denunciou as redes de pornografia pedófila e seus influentes protetores, os mexicanos receberam com consternação a decisão da Corte Suprema, considerada como último recurso contra a impunidade.

Por seis votos a quatro, a instância mais alta da Justiça mexicana declarou, na prática, em 29 de novembro, que as garantias aos direitos pessoais de Cacho não haviam sido violadas, ou, caso o tenham sido, as violações foram "insignificantes" e que não havia provas da participação coordenada das autoridades em um complô contra ela, a despeito dos indícios muitas vezes esmagadores recolhidos pelo magistrado que conduziu a investigação em seu relatório de 1.250 páginas. As duas únicas mulheres do tribunal foram os votos decisivos contra a jornalista.

O veredicto inocenta o governador do Estado de Puebla, Mario Marin, de toda responsabilidade pelo caso. Membro do Partido Revolucionário Institucional (PRI, de centro-esquerda), que governou o México entre 1929 e 2000 e continua a ser apoio essencial ao atual governo de direita, Marin se viu arremessado a posição central em um grande escândalo, em fevereiro de 2006. Gravações de suas conversas telefônicas obtidas pela imprensa mexicana (e cuja autenticidade ele reconheceu) revelavam seu papel na detenção de Lydia Cacho, no final de 2005.

Transferida de Cancún, onde mora, a Puebla, onde seus adversários queriam condená-la por difamação, a jovem jornalista foi submetida a toda espécie de pressão durante a viagem de carro. Policiais a agrediram e assediaram sexualmente, e a ameaçaram com revólveres. Quando chegou à prisão, uma guarda a avisou de que uma prisioneira comum estava encarregada de violentá-la "com um bastão".

Marin ,em conversa telefônica com um de seus interlocutores, Kamel Nacif, um industrial têxtil amigo do pedófilo Jean Succar Kuri, hoje prisioneiro no México depois de ser extraditado dos Estados Unidos, se vangloriou de que "vou afundar a cabeça daquela vadia velha". Em agradecimento, o industrial disse que enviaria ao seu "gober precioso" (maravilhoso governador) duas garrafas de conhaque.

Alguns meses antes, a jornalista havia publicado um livro corajoso e bem documentado sobre as redes de pornografia pedófila, no qual expunha especialmente duas figuras políticas conhecidas., Miguel Angel Yunes, antigo subsecretário de segurança pública e responsável pela previdência social no governo de Felipe Calderón, e o deputado Emilio Gamboa, atual coordenador da ala do PRI no Congresso que permite que o governo da direita retenha sua maioria legislativa.

Aos olhos de numerosos comentaristas, só considerações políticas poderiam explicar a reviravolta do Partido de Ação Nacional (PAN, a direita católica, que está no poder), o qual, na campanha presidencial de 2006 denunciou vigorosamente os abusos do governador de Puebla, mas agora optou pelo silêncio.

A decisão da Corte Suprema, na qual muita gente depositava suas esperanças, macula seriamente a imagem da instituição. "Meu país me maltratou", escreveu Cacho em seu mais recente trabalho, "Memórias de Uma Infâmia", lançado em outubro, pouco antes que ela recebesse em Nova York o prêmio de coragem jornalística da Fundação Internacional das Mulheres de Imprensa. "Eu choro por mim e por aqueles que tinham o poder de fazer com que as coisas mudassem mas optaram por manter tudo igual".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Le Monde
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »