Jovens muçulmanas buscam apoio em bandeirantes

01 de dezembro de 2007 • 08h41 • atualizado às 12h39
A líder do grupo, Farheen Hakeem (dir.), guia meninas muçulmanas por trilha no rio Mississippi, em Minneapolis
A líder do grupo, Farheen Hakeem (dir.), guia meninas muçulmanas por trilha no rio Mississippi, em Minneapolis
29 de novembro de 2007
AP

Neil MacFarquhar

Estados Unidos


Às vezes, quando Asma Haidara, 12, imigrante vinda da Somália, quer fazer compras na Target ou usar o sistema ferroviário local de Minneapolis, ela coloca sua faixa de escoteira por sobre as roupas que costuma usar em sua vida diária - entre as quais uma longa saia, usada por sobre calças, e um lenço amplo recobrindo os cabelos.

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Ela descobriu que a conhecida faixa verde - enfeitada por bandeira dos Estados Unidos, pelo número de sua tropa de bandeirantes (3.009) e pelos coloridos distintivos de mérito - ajuda a reduzir o número de olhares hostis que as vestimentas tradicionais muçulmanas que ela porta costumam causar.

"Se você diz que é bandeira, eles respondem que suas filhas também são, e param de pensar em você como alguém vindo de outro planeta", diz Asma, uma menina franzina, séria, com um sorriso brilhante. "Eles se sentem menos inquietos quando se sentam ao meu lado em um trem".

Comunidades muçulmanas dispersas pelos Estados Unidos estão formando tropas de bandeirantes como uma espécie de ferramenta de assimilação a fim de ajudar meninas que se sentem alienadas da cultura dominante no país, e para criar uma aura de boa vizinhança em torno da religião islâmica.

Tropas de bandeirantes são organizadas da mesma maneira, mas muitas vezes o salto é maior, para as meninas, porque muitas delas vêm de culturas conservadoras, que reprovam sua participação em atividades físicas conduzidas de forma pública.

Ao ensinar meninas a preparar cachorros quentes em uma churrasqueira ou a consertar um pneu de bicicleta, diz Farheen Hakeem, uma das líderes da tropa de Minneapolis, o objetivo é ajudá-las a escapar da percepção de muitos quanto aos muçulmanos serem "diferentes".

O bandeirantismo é uma maneira de celebrar o modo de vida americano sem deixar de lado o islamismo, ela afirma.

"Não quero que elas se vejam como meninas muçulmanas que estão se esforçando por se tornarem norte-americanas", ela diz. "Não, elas já são americanas, com certeza. Não precisam tentar".

O número exato de bandeirantes muçulmanas não é conhecido, especialmente porque a maioria delas está integrada a tropas formadas predominante por pessoas que não compartilham de sua fé. Minneapolis é uma espécie de exceção, porque alguns anos atrás o conselho local da organização de escotismo percebeu uma queda na participação das garotas da região e criou coordenadores para atrair comunidades minoritárias ao movimento.

Cerca de 280 meninas muçulmanas aderiram às 11 tropas predominantemente muçulmanas do local, diz Hodan Farah, que até setembro era coordenador da comunidade islâmica.

Em nível nacional, o Boy Scouts of America conta com cerca de 1,5 mil jovens, em 100 clubes de escoteiros ou lobinhos, patrocinados por organizações islâmicas, de acordo com Gregg Shields, porta-voz da organização.

A organização nacional das escoteiras, Girl Scouts of the USA, se tornou mais flexível nos últimos anos quanto à forma do movimento, tradicionalmente associado a brancos de classe média e cristãos. Muitas tropas abandonaram tradições como orações antes das refeições, e até mesmo o juramento das escoteiras pode ser alterado, de acordo com as necessidades.

"Prometo por minha honra servir a Alá e ao meu país, ajudar as pessoas e seguir as normas das escoteiras", recitaram oito meninas da tropa 3.119, formada predominantemente por muçulmanas, em Minneapolis, em um recente domingo de chuva, antes de saírem para um acampamento em um parque local.

Mas existem diferenças evidentes, claro. No acampamento, Hakeem, ex-candidata à prefeitura pelo Partido Verde, negociou rapidamente com uma aluna de sexta série, Arsha Gardaad, que estava seguindo o jejum do mês sagrado islâmico, o ramadã.

"Se você sair do jejum, sua mãe vai querer me matar?", Hakeen perguntou. Asha acenou com a cabeça em um "não" enfático.

A líder da tropa distribuiu as provisões: cachorros quentes, sobremesas cremosas. Toda a comida era hallal - ou seja, obedecia às prescrições dietéticas islâmicas -, e os cachorros quentes eram de carne bovina e não suína.

Asha adorou a sobremesa. "É uma delícia", disse, lambendo o creme dos dedos enquanto trovões ribombavam por sobre a fogueira que as meninas acenderam. "Ótima maneira de sair do jejum".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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