Ricardo Ginés
Turquia
O momento aconteceu no sábado passado, em uma cerimônia dedicada ao Dia do Professor, em Kozan, uma cidade de 135 mil habitantes no sul da Turquia, na província de Adana, perto da fronteira com a Síria.
Tehvide, 15, aluna de um colégio religioso turco, estava presente para receber o primeiro prêmio de um concurso de redação, e subiu ao palco usando uma saia escocesa, uma blusa sem mangas de estudante e um elegante véu islâmico - do tipo reservado para as ocasiões especiais, um tecido branco diáfano enfeitado de pequenos pontos cintilante, que poderia ter sido desenhado por um estilista como Armani.
Infelizmente, o bom gosto cênico de Tehvide não agradou a Hüseyin Copur, o comandante militar local, ou ao governador do distrito de Kozan, Aydin Tekikoglu, que a abordaram imediatamente e pediram que removesse o véu.
Quando ela se recusou, o diretor de educação do município, Mutlu Canbolat, instou a aluna a deixar o palco, em seguida, ordem que ela obedeceu, em lágrimas, e perguntando "neden hocam?" ("por que, meu mestre?", em português).
Apesar da intercessão de Kazim Ázgam, prefeito da cidade, em defesa de Tehvide, a confusão já estava armada. Imediatamente, as 800 pessoas reunidas para a cerimônia no cinema local - enfeitado com toda a pompa para receber o evento - decidiram deixar a sala, depois de manifestar sua insatisfação para com as autoridades.
Apenas 30 pessoas, na maioria representantes do governo, permaneceram em seus assentos, nos quais foram retratadas, tentando manter expressões neutras, pelos fotógrafos que cobriam o ato.
Graças à rápida difusão da história na Internet e ao impulso recebido dos blogs, Tehvide pode se ver convertida em símbolo da luta contra a discriminação religiosa na Turquia, onde o uso do véu islâmico está proibido em edifícios estatais, entre os quais as universidades.
Se bem a porcentagem tenha diminuído ligeiramente nos últimos anos, mais de metade das mulheres turcas continuam a cobrir os cabelos em público, seja com o véu islâmico, mais comum nas cidades, ou com sua variante da Anatólia, mais tradicional e mais usada no campo.
Na Turquia, tanto em cidades como Smirna ou Istambul, as mais ocidentalizadas do país, quanto nas cidades mais conservadoras da região da Anatólia, como Konya, Erzurum, Kayseri ou Trebisonda, as mulheres com e sem véus costumam conviver sem grandes problemas.
Apesar da pressão religiosa em certos bairros das pequenas cidades e nas periferias das cidades grandes, não existe separação estrita entre as mulheres veladas e as descobertas, entre duas Turquias imaginárias, mas o véu, especialmente o islâmico, vem sendo transformado em ferramenta política, para atender às conveniências de uns e outros.
Assim, enquanto os diários de inclinações laicas - com exceção do liberal Milliyet - se calavam, os diários que costumam dar mais relevância à religião, no cenário público, decidiram elogiar o gesto de Tehvide, que se converteu em heroína.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia