O estado de circulação na região central de Paris pode ser resumida de maneira bem simples: "crise de nervos". O boletim matinal sobre a situação do trânsito reflete o estado de ânimo dos milhares de motoristas que, em um momento como este, no qual a luz do dia mal começou a surgir no horizonte, já estão presos em centenas de quilômetros de congestionamentos nas regiões que cercam a capital francesa.
Desde o início da greve do transporte público, há uma semana, os franceses em geral - e os parisienses em particular - estão se vendo forçados a acordar uma ou duas horas mais cedo, se desejam chegar em tempo aos seus locais de trabalho - ou, no mínimo, tentar realizar essa façanha, seja por meio de automóveis ou dos poucos trens de subúrbio, trens de metrô e ônibus do sistema de transporte público que estão em circulação. O transporte em bicicleta e ir a pé ao trabalho são alternativas para quem tem trajetos curtos a percorrer, mas não servem aos moradores dos subúrbios da capital. "Isso é desumano", se queixa a cinqüentona Mathilde, com um olhar fatigado, enquanto espera o trem.
Estamos na estação de Saint-Cloud, na periferia oeste de Paris. São 10h30min. A rede de trens de subúrbio operada pela SNCF (Transilien) é uma das mais prejudicadas pela greve, ainda que continue a funcionar, precariamente. O painel eletrônico na plataforma anuncia que o próximo direção que sairá em direção ao centro de Paris deve passar às 10h44min, e que os seguintes funcionarão em intervalos que variam de 25 a 50 minutos, ante a média habitual de um trem a cada cinco ou seis minutos.
A banca de jornais da estação está aberta, mas não existem jornais do dia à venda - os distribuidores de jornais também estão em greve, por motivos não relacionados aos dos trabalhadores dos transportes. Os únicos jornais disponíveis são os de distribuição gratuita. As borboletas que controlam o acesso à plataforma estão abertas. Ninguém precisa mostrar passagem para embarcar no trem. O mesmo se aplica a todos os meios de transporte atingidos pela greve, durante todo o dia. Ainda que o número de pessoas à espera de um trem na plataforma seja superior ao normal, não há aglomeração. Ou pelo menos, não tanta aglomeração quanto no horário em que as pessoas estão saindo para o trabalho e passageiros exasperados tentam encontrar lugar nos trens ou na plataforma à força de empurrões. Nos últimos dias, entre 700 e 800 agentes de segurança das ferrovias francesas e policiais estão trabalhando nas grandes estações do sistema ferroviário suburbano a fim de controlar as multidões.
Às 10h58min, apenas 14 min depois de ter saído pontualmente da estação de Saint-Cloud, o trem - estranhamente, um semi-expresso - chega à estação de Saint-Lazare, cuja plataforma parece anormalmente vazia, tendo em vista o horário. O número de trens em circulação caiu muito, mas os horários continuam a ser bastante claros, e respeitados.
Justine trabalha em uma das grandes lojas do boulevard Haussman, normalmente muito ruidoso e movimentado. Ela está com sorte, porque a escola de sua filha está funcionando normalmente, apesar da paralisação de um dia que os funcionários do sistema de educação decretaram como protesto. "A prefeitura garantiu, de qualquer maneira, que as crianças seriam recebidas na escola, e por isso os professores optaram por não fazer greve", ela explicou, aliviada. Outros pais não tiveram semelhante sorte, e tiveram de procurar alternativas: levar os filhos à casa dos avós, tirar um dia de folga no trabalho ou - pelo menos para aqueles que podem agir assim - levar as crianças ao escritório em sua companhia.
O sistema Transilien continua funcionando, ainda que aos trancos e barrancos. Que bom seria se todo o sistema de transporte público conseguisse seguir esse exemplo. A chegada do trem de metrô das 10h04min à plataforma da estação de Saint-Lazare, na linha 12, é saudada quatro minutos mais tarde por uma voz metálica que anuncia que o próximo trem demorará mais 40 minutos. Alguns dos passageiros ostentam expressões de estupefação e incredulidade, mas a maioria parece resignada. Ninguém protesta muito. Alguns poucos optam por deixar a estação. "Vamos procurar um táxi. Onde você trabalha?", perguntam três moças a uma quarta, que parecem conhecer de vista. Os demais passageiros ficam na plataforma, impassíveis, fatalmente resignados, escutando os avisos regulares da voz metálica que os informa que o serviço na linha 12 do metrô é "quase zero". O novo trem por fim chega à estação às 11h49min.
A imensa maioria dos usuários do sistema de transporte público vem dando, até o momento, provas de paciência quase infinita. Mas alguns deles estão enfim começando a perder a calma. "Os passageiros se tornaram um pouco mais agressivos", admite um porta-voz da RATP, a empresa que administra o metrô e o serviço de ônibus municipal de Paris. Um funcionário do Serviço Espanhol de Turismo vivenciou a situação pessoalmente, na segunda-feira, quando uma jovem passageira perdeu o controle dos nervos e o atingiu acidentalmente com um chute dirigido a um funcionário do metrô. "Não foi um chutinho; causou uma pequena ferida", explicou Jaime-Axel Ruiz, o espanhol envolvido no incidente. Nos últimos dias, por motivos óbvios, ele tem preferido se movimentar pela cidade em sua bicicleta.
São 15h28min. Na estação de Duroc, linha 10 do metrô, as coisas parecem ter piorado ainda mais, com relação à situação que existia de manhã. Na rua, começou uma manifestação contra o governo. "No momento, há apenas um trem prestando serviço nessa linha; recomendados aos passageiros que usem o ônibus", diz a voz, acrescentando: "O serviço de ônibus está sofrendo atrasos devido à paralisação". Mas não resta ninguém na plataforma para escutar o aviso.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia