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Clássicos infantis recebem interpretação islâmica

20 de novembro de 2007 10h33 atualizado às 11h52

Se Heidi, a pequena órfã suíça de bochechas rosadas, deseja descansar depois de muito trabalhar levando as cabras ao pasto e sobrevoando os Alpes em uma nuvem, isso agora se tornou mais fácil. Na nova coleção de literatura infantil produzida pela editora Karanfil, de Istambul, a protagonista do célebre romance de Johanna Spyri é a aconselhada a rezar a Alá pedindo repouso.

No mesmo livro, a avó de Clara Sesemann - a amiga de Heidi - não só porta um véu islâmico mas também usa um basörtü, o nome que se dá na Turquia ao traje utilizado por algumas das mulheres muçulmanas mais devotas, que lhes recobre o corpo dos tornozelos ao pescoço. Da mesma maneira, Tom Sawyer, a personificação da travessura em companhia do inesquecível Huckleberry Finn, no clássico de Mark Twain, em sua versão islâmica assentou a cabeça e aprende conscienciosamente os versículos do Corão.

Invocando Alá, Pinóquio pede pão a um Gepeto que usa fez (o tradicional chapéu vermelho de forma cônica usado no Império Otomano). E não devemos esquecer que, nessa versão, é Alá que pode dar vida aos bonecos de madeira, e por isso Pinóquio, como bom muçulmano, também agradece a Ele ao receber esse dom.

Seguindo a mesma linha, o clássico "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas, também contém surpresas. Em uma versão para crianças, um dos três, Aramis, que no original é um personagem repleto de amor pelas mulheres e pela intriga, se vê separado de D'Artagnan. Quando este tenta encontrar o amigo, uma velha senhora explica que ele se havia convertido ao islamismo depois de uma enfermidade.

Todos esses clássicos têm em comum o fato de que fazem parte da lista do Ministério da Educação turco para o ensino básico, e causaram controvérsia no país herdeiro do Império Otomano, devido às suas versões islamizadas.

"Agora, até mesmo livros infantis são usados para propaganda do véu islâmico", protestava, no calor do debate, o diário "Hürriyet". Na opinião de um dos colunistas do jornal, Mehmet Yilmaz, com essa islamização o objetivo é que as crianças se convençam de que não existe outra forma de vida que não a islâmica. Outros veículos de mídia apontam que a prática representa desrespeito para com outras religiões.

O certo é que esse tipo de iniciativa editorial, sempre minoritária, é examinada com imensa atenção por grande parte da imprensa. A mídia laica não deixa escapar nenhuma chance de protestar em altos brados e golpear com firmeza o AKP, Partido da Justiça e Desenvolvimento, o grupo islâmico moderado que governa a Turquia, com o objetivo de desgastar o apoio ao partido e ao governo.

Depois da reformulação do currículo básico da educação básica turca, em 2004, um ano depois surgiu a lista oficial de 100 clássicos infantis recomendada pelo Ministério da Educação.

A lista tinha por objetivo orientar pais e educadores, mas, como não inclui ou rejeita edições específicas, serviu acima de tudo para reforçar as acusações movidas contra o AKP, de que este promove uma islamização lenta mas progressiva da Turquia.

Enquanto isso, o ministro da Educação, Hüseyin Celik, tenta se defender afirmando que instou aos educadores que selecionem a mais correta tradução de cada obra. As editoras islâmicas, por sua vez, não se limitam a islamizar clássicos infantis, e incluem em suas listas as fábulas de La Fontaine e "Os Miseráveis" de Victor Hugo.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

La Vanguardia
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