Com caos ferroviário, ônibus está na moda na Espanha

13 de novembro de 2007 • 10h50 • atualizado às 10h53

Esteve Giralt

Espanha


Apenas 177 km separam a cidade de Tortosa, no departamento de Baix Ebre, e Barcelona, mas viajar de trem entre o principal pólo de atração social e econômica da região de Terres de l'Ebre e a capital catalã se transformou em aventura nada recomendável.

Laura Cervera vive em Sant Carles de la Rápida (Montsiá) e começou este ano a estudar Biologia em Barcelona. Muito a contragosto, ela toma o trem duas vezes por semana na estação de l'Aldea (Baix Ebre),a parada anterior a Tortosa. O caos ferroviário transformou boa parte das jornadas de Laura em pesadelos, e ela já se resignou a ocasionalmente ver a noite cair pela janela do trem. "Já me atrasei até cinco horas, em minhas viagens de volta de Barcelona", conta.

Para os milhares de usuários da rede ferroviária nos distritos do sul da Catalunha, é normal levar três horas e meia para percorrer um trajeto que, antes dos problemas na rede ferroviária, durava duas horas. A experiência dos sofredores nessas linhas regionais indica que a duração média dos percursos dobrou.

Se eles perderam a conexão em Sant Vicenç de Calders e caso o trasbordo entre as linhas regionais e as de trens municipais demore, podem perder mais de quatro horas no percurso. Se acrescentarmos a isso os pequenos incidentes que costumam se repetir, é comum que uma viagem regional de trem demore cinco horas. Joana Pardos, uma jovem moradora da região de Terres de l'Ebre que trabalha em Barcelona, o sabe bem, e se queixa da desinformação prestada pelos serviços da Renfe (a operadora ferroviária) cujo suposto objetivo é manter os passageiros informados.

"Muitos dos atendentes não conhecem nem mesmo a geografia do território que as linhas atendem", ela diz. Um dos principais obstáculos envolve descobrir qual a melhor linha de trem de subúrbio a utilizar em Barcelona a fim de obter conexão rápida, em Sant Vicenç, com um dos trens que partem para Tortosa, cidade que, para alguns dos atendentes da operadora ferroviária, parece estar na China. Os horários oficiais não servem de referência, comenta Joana, que já está cansada de ligar para a Renfe em busca de informações e tem o número da empresa gravado a fogo em sua memória.

Tantas dificuldades e tantos atrasos levaram muita gente a desistir do trem, o que colocou na moda uma outra modalidade de transporte comunitário: o ônibus. A Hife, uma empresa que oferece serviços de ônibus entre Tortosa e Barcelona, duplicou seu número de usuários, de acordo com o gerente Josep Maria Chavarria: "Estamos vivendo um boom".

Nas sextas-feiras e especialmente aos domingos, a empresa coloca carros extras para atender às linhas. Apesar dos congestionamentos na entrada de Barcelona e na AP-7, os usuários consideram glorioso poder viajar a mais de 100 km/h pela rodovia, especialmente em comparação com trens que raramente passam dos 60 km/h. Há seis meses, quando começaram os problemas nas ferrovias, a Hife fez uma forte aposta: aumentou seu número de linhas e criou um sistema de passes. "No trem, pagamos a mesma coisa por um serviço defeituoso", diz Joana.

Pontualidade britânica
A estação internacional de Saint Pancras, em Londres, foi inaugurada oficialmente esta semana pela rainha Elizabeth, ainda que certas porções só devam entrar em funcionamento em 9 de dezembro, como informam os panfletos da operadora britânica de ferrovias. Mas o mais curioso é a inscrição exibida sob o nome da estação, que pode se aplicar tanto às obras como à eficiência dos trens: "Safely, on time, under budget" (em segurança, em tempo e abaixo do orçamento). Pontualidade britânica.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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