As ovelhas mortas são os animais com maior destaque na exposição |
Carol Vogel
Estados Unidos
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» Artista vende caveira com diamantes
Na noite de sábado, quando os véus protetores forem removidos do saguão da Lever House, na esquina da Park Avenue com a rua 54, em Manhattan, os espectadores estarão diante de uma verdadeira arca de Noé da morte animal: 30 ovelhas, um tubarão, duas peças de carne, 300 salsichas, duas andorinhas (descritas pelo artista britânico Damien Hirst como sua peça mais madura): todos mortos.
Além do espetáculo de arte, iluminado 24 horas ao dia por luzes fluorescentes, os transeuntes também poderão contemplar, na noite de sábado, a grande festa para duas mil das figuras de maior destaque no mundo das artes e da cultura. A instalação, que estará em exibição até 16 de fevereiro, foi encomendada por Aby Rosen, o incorporador imobiliário que é dono da Lever House, do Gramercy Park Hotel e do Seagram Building, e por Alberto Mugrabi, um negociante de arte de Manhattan.
Os dois se uniram para adquirir por US$ 10 milhões a instalação de Hirst, chamada "Escola: A Arqueologia dos Desejos Perdidos, Abarcando o Infinito e a Busca pelo Conhecimento", que agora fará parte do acervo de arte da Lever House.
Em 2005, o incorporador de imóveis perguntou ao artista se ele estaria disposto a criar uma peça de arte para o saguão da Lever House, construído integralmente em vidro e usado freqüentemente para exposições de arte transitórias. Para Rosen, encomendas como essa são uma maneira de atrair atenção ao edifício histórico, adquirido por sua empresa, a RFR Holding, em 1998.
"Exibir excelentes trabalhos de arte é uma ótima maneira de tornar o edifício mais visível", disse Rosen, acrescentando que gosta de analisar a maneira pela qual diferentes artistas se relacionam ao espaço. Certa tarde desta semana, enquanto supervisionava os trabalhadores que estavam desembrulhando as peças de carne bovina, Hirst disse que "eu rascunhei a idéia em 10 minutos, mas colocar o projeto em prática demorou dois anos".
Propositadamente provocativo e muitas vezes perturbador, o artista talvez seja mais conhecido por "A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo", um tubarão mergulhado em um aquário repleto de formol, peça adquirida por Steven Cohen, bilionário criador de fundos de hedge norte-americano, e que está emprestada ao Museu Metropolitano de Arte de Nova York.
No ano passado, Hirst exibiu um crânio humano envolto em platina e recoberto por 8.601 diamantes, uma peça de US$ 100 milhões que atraiu milhares de visitantes à White Cube, a galeria londrina que a abrigou em exposição, reservando para a peça uma sala inteiramente preta. Ambos os trabalhos parecem modestos quanto comparados à mais recente empreitada de Hirst.
O saguão inteiro da Lever House estará equipado com cerca de 15 armários de remédios (um tema que Hirst já utilizou em exposições passadas), ocupados por milhares de caixas vazias e vidros com rótulos de medicamentos antidepressivos, xaropes e outros remédios. As 30 ovelhas ficarão alinhadas em fileiras, dentro de tanques repletos de formol, evocando crianças dóceis alinhadas em suas carteiras em uma sala de aula. Hirst decidiu instalar no saguão um gigantesco tanque de 3,60 m de altura, cheio de formal, dentro do qual estarão visíveis as duas peças de carne bovina, uma cadeira, uma fileira de salsichas, um guarda-chuvas e uma gaiola com as duas andorinhas mortas.
Hirst descreve o trabalho como uma homenagem a "Painting", quadro de Francis Bacon, datado de 1946, que faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Na peça, carcaças de vacas pendem do teto em forma de crucifixo. Hirst afirmou que a instalação ¿ cuja montagem custou US$ 1 milhão - na verdade é uma espécie de cumprimento aos artistas modernos.
"Todo mundo está aqui", afirma. Temos Dan Flavin (as faixas de iluminação fluorescente); Warhol (o conceito de repetição, exemplificado pelas fileiras de ovelhas mortas); Joseph Cornell (as caixas que envolvem os animais mortos); Jannis Kounellis, que usa pássaros vivos em seu trabalho; e René Magritte, que pintou um ovo em uma gaiola. Todos os componentes utilizados na instalação, incluídos quase dois mil litro de formol, foram transportados por via aérea da Inglaterra. Hirst diz ter comprado as ovelhas de um açougueiro e o tubarão de um fornecedor, ambos localizados na região britânica da Cornualha. "Não matamos nada para produzir o trabalho. Os animais todos estavam destinados a processamento como comida".A despeito da exagerada decadência que caracteriza o trabalho de Hirst, ele dedica grande atenção aos detalhes. O artista criou um estêncil vermelho que foi usado de maneira aleatória para carimbar as ovelhas, como se fosse uma marca de propriedade inscrita com ferro em brasa. A cadeira submersa no tanque de formol é feita de resina, mas tem aparência semelhante a uma cadeira de couro já desgastada pelo uso; ele projetou 20 relógios cujos ponteiros giram em sentido anti-horário, e os instalou como adornos em todas as janelas do saguão.
"Esse é o meu rebanho", afirmou Hirst enquanto contemplava o resultado final de seu trabalho no saguão da Lever House. "Uma instalação sem parede alguma. Apenas vidro".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times