Nem a experiência, nem as perguntas formuladas, porém, nos explicaram coerentemente por que os cubanos não têm direito a se hospedar neste e em outros hotéis com a mesma liberdade concedida aos estrangeiros. Será esse um dos "absurdos" que o governo prometeu eliminar? É o que esperam os cubanos.
Manuel é cozinheiro em um dos hospitais cubanos envolvidos na Misión Milagro, uma ampla operação de assistência médica que se estende para além das fronteiras da ilha. Manuel, sua mulher, Aymara, e seus dois filhos estão passando uma semana de férias no hotel, prêmio que lhe foi concedido por sua participação em um dos programas de maior destaque na revolução. A família está passando uma semana em um dos bangalôs do hotel, e a custo zero. A Cubanacán, operadora do hotel, enviará a conta ao hospital.
Há outros hóspedes que não têm conexão com a Misión Milagro, mas participam do Plano Nacional de Estímulo. Trata-se de trabalhadores de vanguarda ou de elevado desempenho, tais como reconhecidos pelo sindicato. Normalmente, eles pagam apenas uma fração dos custos do hotel, cujas diárias ficam em 80 pesos cubanos por pessoa (2,60 euros), com tudo incluído. (O preço para os estrangeiros é de 70 pesos conversíveis, ou 56 euros.)
Manuel e Aymara se sentem "muito bem" no Playa Girón. "Para nós, é genial", garante Aymara. A opinião dela coincide com a dos demais entrevistados.
Para um europeu, o Playa Girón está longe de ser bom. As filas, a baixa qualidade da comida, a falta de ar condicionado e a tristeza da luz artificial mortiça na sala de refeições ¿ que não serve café no desjejum - nos impedem de formar um juízo tão construtivo quanto o de Aymara. O lugar é bonito, e o hotel parece ter sido excelente, anos atrás. Mas as rachaduras nas paredes e a umidade nos pequenos bangalôs, o barulho dos climatizadores antiquados e a presença de seres vivos não convidados nos quartos forçam o hóspede estrangeiro a um esforço considerável de adaptação.
Mas não admira que Manuel e Aymara se sintam privilegiados, como ocorre com milhares de outros cubanos que, entre junho e novembro, chegam ao Playa Girón e outros hotéis do programa de estímulo. Seus demais compatriotas têm de se conformar com modestos centros populares de acampamento, e cubano algum pode se alojar na imensa maioria dos estabelecimentos hoteleiros do país, os classificados como locais para turistas ¿ nem mesmo os poucos que poderiam pagar um hotel de quatro ou cinco estrelas.
Cuba talvez seja o único ou um dos poucos países do mundo a adotar essa proibição. Mas também talvez seja o único cuja constituição reconhece expressamente aos cidadãos o direito de hospedagem em qualquer hotel, uma cláusula concebida para eliminar o racismo do regime do ditador Fulgencio Batista, mas que a revolução vem ignorando há anos.
Ramiro Valdés, ministro e líder da revolução, apelou alguns dias atrás pelo "fim dos absurdos" em Cuba. Muitos cidadãos associaram a promessa ao possível fim do apartheid turístico, entre outras coisas. O presidente interino, Raúl Castro, prometeu "mudanças estruturais", em um discurso em 26 de julho. Os cubanos estão à espera dessas mudanças.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia