Cidade chinesa sofre com contaminação ambiental

23 de outubro de 2007 • 11h03 • atualizado às 11h10

Rafael Poch
Direto de Pequim

China


O presidente chinês Hu Jintao declarou no recente congresso do Partido Comunista da China que, no ano 2020, todos os habitantes do país "terão acesso a serviços médicos", e que "a qualidade do ambiente ecológico será melhorada". Trata-se de promessas importantes para Xiditou, uma pequena cidade de cerca de sete mil moradores localizada a 150 km de Pequim. Aqui vemos um outro lado do sucesso chinês, já que a vida piorou exatamente por causa do desenvolvimento.

Os moradores locais preferem não conversar com jornalistas. Repórteres demais já visitaram a cidade para escrever sobre a história do câncer sem que nada fosse solucionado, afirmam. Os moradores foram derrotados em todos os seus apelos, e além disso as autoridades locais preferem que ninguém fale sobre o assunto e pressionam os cidadãos. Alguém comenta que as pessoas que falarem podem perder o auxílio anual de 15 euros do governo para gastos médicos. Trata-se de uma história comum a dezenas de pequenas cidades chinesas, lugares onde problemas de contaminação resultaram em disparada da mortalidade por câncer, sem que ninguém se importe.

"Nos anos 90, os moradores locais venderam terra à indústria. Foram construídas dezenas de fábricas de produtos químicas. A contaminação era muito intensa; as águas do rio ficavam verdes ou vermelhas, e o ar tinha um cheiro horrível; cerca de 60% das mortes tinham por motivo o câncer", disse Liang Shu, cujo filho de seis anos sofre de uma "doença do sangue" que arruína a precária economia da família. "Os ricos foram embora; só nós, os pobres, ficamos", explica.

Xiditou é uma cidadezinha feia, de pessoas sem terra que ainda assim continuam se considerando camponesas, embora vivam com os salários precários de empregos mais urbanos que rurais. Fábricas se fecharam e o lixo se amontoa pela cidade; o cenário é de desolação. A água continua infecta, embora os escândalos do câncer que motivaram até uma reportagem da estação central de TV da China "tenham levado a alguma limpeza", explica Lan Shurong, outra moradora, que perdeu o marido por um câncer de pulmão, em 2004.

"Temos muito medo de adoecer; quando vamos ao hospital por algum motivo, câncer costuma ser o diagnóstico mais comum", afirma Shurong, que concordou em falar porque não recebe os 15 euros de ajuda anual.

Na China, o câncer é a maior causa de morte, de acordo com estudo oficial realizado em 30 cidades e 78 regiões, divulgado recentemente. Nos últimos anos, a incidência de mortes por câncer cresceu em 19% nas cidades e em 23% no campo. O motivo, segundo o estudo, é a contaminação da água, do ar, a enorme utilização de pesticidas, as indústrias químicas que lançam resíduos diretamente aos rios. Um milhão de chineses morrem devido à contaminação a cada ano, e os problemas ecológicos têm custo anual equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, de acordo com a ministra espanhola do Meio Ambiente, Cristina Narbona, em visita a Pequim. Nas universidades de Pequim, o cálculo sobre o custo é um pouco maior: 5% do PIB.

Em Xiditou, as pessoas acreditam que a água dos poços, consumida pela maioria, esteja contaminada. Zhao Xianglong, líder local do Partido Comunista, afirma que é perfeitamente potável e que a imprensa exagera. Pergunto-lhe se sua família bebe a água dos poços, e ele responde que sim. Fui recebido amavelmente, talvez por instrução do governo central, que está tentando facilitar o trabalho da imprensa estrangeira nas províncias, mas é perceptível que ele me vê como demônio estrangeiro disposto a causar confusão. Enquanto conversamos, seus assessores tentam arrancar do motorista de táxi que me transportou os nomes dos moradores locais que falaram com o estrangeiro. A idéia de que roupa suja se lava em casa é muito arraigada, por aqui.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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