Mulheres impõem seu estilo em cargos de poder

21 de outubro de 2007 • 12h59 • atualizado às 12h59

Annick Cojean

Estados Unidos


Trata-se de um movimento? De uma idéia? De uma linha de pensamento? Será uma filosofia ou mais simplesmente uma tomada de consciência ¿consciência que, compartilhada para além das fronteiras e dos continentes, poderia se tornar força, alavanca, propulsor?

Alguma coisa surgiu, de qualquer forma, no Fórum da Mulher em Deauville, no final da semana passada, e ainda que não exista nome ou reconhecimento oficial para o fenômeno, e tampouco teorias que o definam ou grandes sacerdotes que o comandem, ele se impôs entre as mil participantes, vindas de 70 países, na forma de prova e de doce certeza quanto ao surgimento de um novo feminismo. Ou, de acordo com Aude Ziesennis de Thuin, a criadora do fórum, de uma vontade de "um caminho feminino".

Mas o termo é fraco demais para qualificar o desejo expresso de forma tão ardente nas reuniões formais e informais em Deauville: as participantes querem influenciar coletivamente o avanço do mundo; querem dirigir o curso que as coisas tomam, e não aceitá-lo sem discutir; querem impor uma visão, valores e prioridades que, para as participantes (e os participantes igualmente: havia 15% de homens na audiência), tenham natureza "mais feminina".

Elas querem ser entendidas e querem se envolver. Coletivamente. Como mulheres. Sem agressividade contra os homens, sem estratégias de batalha, mas com a consciência sempre presente de uma sensibilidade comum às mulheres, a reivindicação de um olhar diferente sobre a globalização e, acima de tudo, um sentimento de urgência quanto à expressão de outras preocupações que foram silenciadas por muito tempo em um mundo dominado pelos homens.

"Acredito sinceramente que, se as mulheres dirigissem a economia, o mundo estaria em melhor estado", fulminou a vice-presidente da África do Sul, Phumzile Mlambo-Ngcuka, na primeira noite do evento. "Nós podemos mudar a política, os negócios, as instituições multilaterais. Todo mundo sairá ganhando!" Aplausos garantidos. Ela em seguida propôs, com um sorriso, que todas as mulheres do mundo passassem um dia sem sair da cama. Só pelo prazer de assistir ao caos que esse gesto geraria. "As crianças, a escola, as refeições, o transporte, o comércio... Vocês imaginam como ficaria o mundo?"

E a platéia imaginava, sim. E mergulhou apaixonadamente nos debates do terceiro ¿fórum de Davos¿ feminino, discutindo a questão da confiança na mídia e nos governos, formas de reforçar a coesão social, meios de preservar os sistemas de saúde, os desafios apresentados pelas alterações climáticas... Muitas dos participantes dos painéis de discussão ¿Anne Lauvergeon (da Areva), Ana Palacio (Banco Mundial), Laurence Parisot (Medef), o ambientalista chinês Liao Xiaoyi Sheri, a ex-ministra Elisabeth Guigou ou o presidente da Renault-Nissan, Carlos Ghosn- tinham interesse por declarações concretas e diretas, e a audiência, atenta, os questionava, mas ocasionalmente revelava impaciência, como se soubesse que não era aquilo o mais interessante.

Pois era nos corredores, nas mesas de café e nas refeições que o espírito do fórum se revelava com mais intensidade: a abertura, a curiosidade das mulheres umas sobre as outras, a simplicidade dos diálogo. Bastava uma apresentação e as perguntas se amontoavam, acompanhadas de risadas, trocas de confidências ¿sobre o trabalho, os pais envelhecidos, as crianças-, sem que status social, nacionalidade ou hierarquia fossem levadas em conta. "Em reuniões de dirigentes masculinos, a rivalidade e o desdém estão sempre presentes", sorria o financista Jean-Luc Allavena, encantado com a atmosfera. "Os rapazes não conseguem evitar trocar alfinetadas".

Não é o caso aqui, garante Patricia Barbizet, diretora geral da Artemis e vice-presidente do conselho do grupo Pinault. "O prazer do encontro, da comunicação, da troca, são sinceros e autênticos, e há muitos pontos comuns evidentes entre nós, uma semelhança em termos de percursos e de obstáculos superados. E a necessidade de que discutamos, juntas, aquilo que podemos fazer de nosso poder, a nossa possível contribuição comum".

O projeto ainda está em amadurecimento, mas a idéia de um "novo feminismo" não desagrada o maestro Laurence Equilbey, convidado ao fórum pela sua patrocinadora, a Orange. "Mas que seja um feminismo solidário e afetuoso. As mulheres já conquistaram sua legitimidade. O combate delas, hoje, deve ser acima de tudo em busca da harmonia". Não é por acaso, afinal, que muitas empresas dão preferência à contratação de mulheres para seus cargos principais, avalia Floriane de Saint-Pierre, presidente e fundadora de uma empresa de contratação de executivos para o setor de produtos de luxo. "Os valores que elas encarnam, suas preocupações naturais no que tange à paz, à saúde, ao meio ambiente, à bioética, e mesmo à liberdade, estão em sintonia com a era. O mundo do século XXI percebe claramente que essas idéias são vitais".

As mulheres preservam a vida. As mulheres pensam sempre em longo prazo. "O primeiro-ministro Zapatero compreendeu perfeitamente", alega Agatha Ruiz de la Prada, estilista espanhola, "e por isso introduziu a paridade no governo, no Parlamento, nas empresas. E com isso transformou a Espanha! Fez dela um país moderno, dinâmico, responsável, e um dos menos machistas do mundo". E o mesmo pode ser dito sobre a Costa Rica, de acordo com a embaixadora do país. "Mais de 40% das cadeiras do Legislativo são ocupadas por mulheres. E é difícil imaginar como as cotas, introduzidas 20 anos atrás pelo presidente Arias, inspiraram as mulheres e seu desejo de educação".

Inspiradas? Esse é o termo preciso para descrever as mulheres que escutavam as palestras de outros participantes, ou aprendiam, sobre os numerosos projetos sociais, educativos e humanitários bancados por grandes fundações (Cartier, L¿Oréal, Elle, JP Morgan...).

Inspiradas, igualmente, por Soukeyna Ba, a senegalesa que, em 1987, criou uma estrutura capaz de oferecer microcrédito às mulheres e assessorá-las na gestão de suas empresas. Hoje, ela já ajudou a criar 120 mil empresárias, transformando o destino de três gerações. "Quando os homens têm dinheiro, gastam a torto e a direito, compram carros bonitos. O dinheiro das mulheres sempre é usado para a casa, e serve para financiar a melhor educação possível para os filhos", ela diz.

Inspiradas, também, por May Chidiac, jornalista de TV libanesa que perdeu um braço e uma perna em um atentado mas voltou ao estúdio para trabalhar e combater o terrorismo, e pela farmacêutica Sarana Daraba Kaba, antiga ministra na Guiné, que deseja criar uma internacional da mulher para dar ao lado humano a prioridade no desenvolvimento.

Uma pesquisa divulgada no fórum demonstra que - na Alemanha, Itália, França e Estados Unidos - as mulheres são mais capazes de perceber corrupção, e portanto são mais capazes de resistir a ela do que os homens. Uma segunda afirma que as empresas que contam com mulheres em seus conselhos ou quadros executivos apresentam o melhor desempenho. Em Deauville, ninguém duvida disso.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Le Monde
 
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