Bruce Steiner, 76 anos, ajuda a alimentar seu companheiro, Jim Anthony, 71 anos, que sofre de Alzheimer, em Sudbury, Massachussets |
Jane Gross
Estados Unidos
Ela deixou de ser incluída nas conversas ou convidada para as mesas em que costumava fazer as refeições, e entrou em depressão. Os remédios não ajudaram. Com a deterioração de sua saúde emocional, Donadello se transferiu a uma comunidade adulta nas redondezas que atende a homens e mulheres homossexuais. "Senti-me um pária", ela disse, já acomodada à sua nova moradia. "Para mim, era uma escolha entre a vida e a morte".
Homossexuais idosos como Donadello que vivem em casas de repouso, asilos ou recebem assistência externa em suas residências vêm cada vez mais reportando casos de desrespeito, rejeição ou maus tratos, de maneiras que variam de incômodas a mortíferas, já que alguns deles foram levados ao suicídio.
Alguns deles vêem seus parceiros e amigos insultados ou isolados. Outros vivem com medo do dia em que dependerão de desconhecidos para seus cuidados pessoais. Esse temor, por si só, pode ser prejudicial em termos físicos e emocionais, dizem geriatras, psiquiatras e assistentes sociais.
Os problemas dos homossexuais idosos estão sendo levados a sério por uma geração de homossexuais mais novos, preocupados com seus futuros, e eles começaram uma campanha nacional para informar as empresas que prestam assistência a idosos quanto ao isolamento social, e até mesmo discriminação aberta, que seus clientes homossexuais e transexuais enfrentam.
Diversas soluções começam a surgir. Em Boston, Nova York, Chicago, Atlanta e outros centros urbanos, estão surgindo organizações conhecidas como Projetos para Idosos GLBT, com o objetivo de treinar os trabalhadores que prestam assistência a homossexuais idosos. Também existem assistentes sociais que assumem sua homossexualidade e orientam as pessoas que atendem quanto a serviços que consideram não discriminatórios.
Ao mesmo tempo, existe um movimento que defende que os homossexuais idosos recebam o mesmo tratamento que os heterossexuais, mas em unidades separadas. No subúrbio de Boston, a Chelsea Jewish Nursing Home começará em dezembro a construção de um complexo que incluirá uma unidade para homossexuais idosos. E o Stonewall Communities, na mesma cidade, começou a vender residências projetadas para homossexuais idosos, em condomínios que proverão serviços de apoio semelhantes aos disponíveis em casas de repouso e estarão disponíveis para os novos moradores e para pessoas que continuem vivendo em suas casas anteriores.
"Muitas vezes os homossexuais evitam procurar ajuda devido ao medo quanto ao tratamento que podem receber", disse David Aronstein, presidente da Stonewall Communities. "A menos que eles vejam ações positivas, presumirão o pior".
A homofobia dirigida aos idosos pode ter muitos aspectos. Os provedores de assistência residencial precisam ser lembrados de que não devem usar luvas em momentos indevidos, por exemplo ao abrir a porta da casa ou arrumar a cama, casos em que não existe perigo de infecção por HIV, disse Joe Collura, enfermeiro que trabalha para a maior agência de assistência doméstica no bairro de Greenwich Village, em Manhattan.
Uma lésbica que ocuparia um quarto duplo em um centro de reabilitação de Chicago foi recebida pela sua colega de quarto com gritos de "tirem esse homem daqui". A paciente lésbica, Renae Ogletree, chamou um amigo para que a levasse a outro lugar.
Ocasionalmente esse tipo de atitude pode resultar em tragédia. Em uma casa de repouso em uma cidade da costa leste, um homem gay assumido e desprovido de família ou amigos foi recentemente transferido de piso para calar os protestos de outros moradores e de suas famílias. Recebeu um quarto na ala que abriga os pacientes de demência e outras formas severas de incapacidade.
A casa de repouso procurou Amber Hollibaugh, que hoje é diretora de estratégia da Gay and Lesbian task Force e autora do primeiro currículo para treinamento de funcionários de casas de repouso no tratamento de pacientes homossexuais. Hollibaugh disse que garantiu que fosse oferecida uma solução mais humana ao paciente de 79 anos, mas ele se enforcou. Ela preferiu não informar o nome da casa de repouso, porque ela presta consultoria ao estabelecimento e a outras empresas semelhantes.
Embora um desfecho como esse seja raríssimo, transferir residentes homossexuais de suas acomodações para aplacar os demais moradores é uma prática comum, disse a Dra. Melinda Lantz, diretora de psiquiatria geriátrica do Centro Médico Beth Israel, em Nova York, que ocupou durante 13 anos um posto semelhante no the Jewish Home and Hospital Lifecare System. "Quando surgem obstáculos que forçam a transferência de alguém porque a pessoa está sendo vítima de agressões, o residente acaba sendo colocado em companhia de pessoas muito confusas", disse Lantz. "Essa é a realidade prática da questão, e é terrível".
Para uma geração acostumada a viver no armário, a reação mais comum é um recuo à invisibilidade que foi comum ao longo de quase todas as suas vidas, em eras nas quais o homossexualidade era considerado crime e doença mental. Lantz diz que "ter de ocultar essa porção da identidade em um momento no qual a identidade como um todo está sob ameaça leva a depressão, dificuldades de adaptação e até à morte".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times