Lluís Uría
França
A instituição, criada em 9 de dezembro de 1777 pelo rei Luís XVI, decidiu celebrar seu 230° aniversário restituindo gratuitamente a mil de seus "clientes sociais" ¿ a designação oficial dos usuários menos abonados - os bens que reteve como garantia de seus empréstimos. A devolução beneficiará apenas os proprietários dos objetos menos valiosos, aqueles pelos quais a instituição faz um empréstimo simbólico de 30 euros ¿ a quantia mínima que ela oferece -, e portanto os beneficiários serão todos pessoas pobres.
Criados na Itália do século 15 por um monge chamado Bernabé de Terni, os montepios nasceram como uma forma de combater os usurários. Na França, depois de uma experiência anterior curta e malograda, esse tipo de instituição só viria a se consolidar no reinado de Luís 16. Na época, o Montepio de Paris realizava empréstimos com juros anuais de 10%, em um período no qual os usurários costumavam cobrar 12 vezes mais. A pobreza era pavorosa, então, e a situação insustentável terminaria resultando em uma revolução. No entanto, nem o gesto caridoso do rei Luís 16 para com seus súditos mais endividados serviu para livrá-lo da guilhotina.
Hoje, o Crédito Municipal de Paris, que desde 1992 está sob o controle da prefeitura da cidade, funciona quase como os outros bancos. Com exceção de um detalhe: sua função continua a ser a concessão de empréstimos nos quais a caução é muitas vezes representada por um objeto depositado pelo devedor. Usualmente esses objetos são jóias, relógios, casacos, talheres finos, móveis, tapeçarias, instrumentos musicais, peças de arte... Cerca de 130 mil pessoas passam pela sede da instituição no Marais a cada ano, com o objetivo de penhorar algum bem para resolver problemas urgentes de dinheiro, em geral para cobrir o pagamento de aluguéis ou custos médicos imprevistos.
Também há pessoas que se tornaram clientes regulares, algumas porque são viciadas em jogo e outras porque preferem o sistema da instituição a um empréstimo convencional. O objeto é avaliado em prazo máximo de uma hora, e a concessão do crédito ¿ embora nem sempre pelo valor a que o cliente aspira - é sempre rápida e simples. O contrato dura um ano, depois do que o interessado deve reembolsar o dinheiro emprestado e pagar juros que variam de 8% a 14%, se não deseja que seu bem vá a leilão. Último recurso dos necessitados, a atividade do Crédito Municipal ¿ cujo número de usuários cresceu em 35% nos últimos 10 anos - é também um termômetro social.
Mas os tempos mudam. Hoje, já não são apenas as pessoas desprovidas de recursos que recorrem à ajuda da hipotética tia. Elas continuam a existir, claro. Um exemplo seria aquela pobre mulher que penhorou uma velha panela de cobre por 30 euros para pagar uma consulta do seu gato em um veterinário. Mas há também clientes mais abonados, exemplificados pelo casal que penhorou um quadro cubista por 274 mil euros para pagar pela reforma de seu apartamento. Bernabé de Terni deve ter revirado na tumba.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia