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Deborah Solomon
Como mais celebrado escritor do Peru e antigo candidato à presidência do país, o senhor escreveu um romance surpreendentemente sentimental Travesuras de la Niña Mala, uma história de amor narrada por um peruano culto que se muda para Paris e dedica 40 anos a tentar conquistar uma mulher que ele conheceu ainda na escola.
Ricardo é tradutor, o que representa um reflexo de seu temperamento. Ele é um intermediário. Não tem muita personalidade, e em sua vida existe apenas uma aventura: a menina má. Sem ela, sua vida é muito medíocre, reprimida, sem horizontes.
Sim, lhe falta ambição.
Bem, a ambição dele é a menina má!
O senhor o admira?
Admiro mais a menina má.
Por quê? Ela é fria e oportunista, uma mulher interesseira que termina se casando com empresários na França, Inglaterra e Japão sem sentir uma gota de afeto por qualquer um deles.
Acredito que ela seja mais complicada do que isso. Observe de onde ela vem. Suas origens sociais são a espécie de ambiente no qual a vida é como uma selva, um lugar no qual, se você deseja sobreviver, se torna um animal. Ela foi treinada para ser uma espécie de animal de briga, e brigar é o que ela faz.
O senhor conhece alguma menina má?
Sim. Diversas. Com certeza. No Peru, existem muitas, mas também na França e Espanha. Nos Estados Unidos, igualmente, existem muitas meninas más.
Não. Isso não pode ser verdade. Não temos meninas más por aqui.
Você passou toda a vida isolada em Manhattan, mas se for à Califórnia logo encontrará meninas más.
Vamos conversar um pouco sobre sua breve e fútil passagem pela política. O senhor disputou a presidência do Peru contra Alberto Fujimori e saiu derrotado, e ele no mês passado terminou encarcerado em Lima, depois que o Chile o extraditou.
Fiquei muito feliz, evidentemente. Trata-se de um exemplo para o futuro. Ele foi um ditador horrível. Matou gente demais; roubou dinheiro demais; cometeu os mais atrozes abusos contra os direitos humanos.
O senhor disputou a eleição contra ele com um programa que defendia o livre mercado, inspirado pelo conservadorismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.
Defendo a liberdade econômica, mas não sou conservador.
O senhor chegou a conhecer o presidente Reagan?
Encontrei-me com ele uma vez e lhe disse: "Senhor presidente, admiro muitas das coisas que o senhor faz, mas não consigo aceitar que em sua opinião Louis L'Amour seja o mais importante escritor dos Estados Unidos. Como isso é possível?"
Além da ficção, o senhor escreveu um volume considerável de trabalhos para o teatro e textos de crítica literária, entre os quais uma apreciação de Gabriel García Marquez, de quem mais tarde o senhor se distanciaria.
Não falo sobre isso. Não falo sobre García Marquez, e isso é tudo.
Comparado ao realismo fantástico, o seu estilo tem raízes mais firmes nas narrativas vastas, panorâmicas, do romance do século 19.
Meu Deus! Espero que seja verdade. O apogeu do romance foi o século 19, com Dostoiévski, Tolstói, Melville e Dickens.
Como um personagem em um romance vitoriano, o senhor se casou com uma prima em primeiro grau.
Apaixonei-me por ela. O fato de que fosse minha prima não foi levado em consideração.
Sua primeira mulher era a cunhada de seu tio, e supostamente inspirou seu romance cômico Tia Júlia e o Escrevinhador. O que todos esses romances em família querem dizer?
Precisaríamos de um psicanalista para descobrir, e não defendo a psicanálise. Assim, o mistério triunfará.
O que o senhor tem contra a psicanálise?
Ela fica perto demais da ficção, e não preciso de mais ficção em minha vida. Adoro histórias, e minha vida se concentra principalmente em histórias, mas não tenho a pretensão de considerá-las cientificamente precisas.
O senhor pensa em escrever sua autobiografia?
Apenas se eu atingir os 100 anos de idade escreverei uma autobiografia completa. Antes disso, não.
The New York Times Magazine
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