Campanha com foto de Toscani alerta para anorexia |
Celeste López
Espanha
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O sentimento é comum entre os 40 pacientes (dos quais apenas um homem) que compartilham de sua ala no instituto e debateram o tema durante uma hora em uma das sessões de terapia conduzidas no centro. Elisabeth, de Alicante, sofre de anorexia desde os 18 anos de idade. Era atleta de competição, disputando torneios de taekowndo, e sua obsessão por perder "um pouco de peso" e poder competir na categoria 50 kg a conduziu à sua situação atual.
"Queria perder 3kg e terminei perdendo mais de 10. E não demorou muito para que eu passasse a desejar perder cada vez mais peso, até quase perder a vida". Ela garante que sofreu "imensamente" e que passou momentos "tão duros que, por mais que eu tente, não consigo explicar". E justo agora, quando se sente mais forte para encerrar em vitória sua luta contra a enfermidade, ela encontra "uma fotografia que me faz recordar toda aquela dor. O corpo dela me recorda tanto o estado em que o meu se encontrava, há apenas alguns meses".
A magreza extrema a forçou a deixar o esporte, e ela retomou os estudos. O perfeccionismo que caracteriza as pessoas que sofrem dessa doença a conduziu a um desempenho muito eficiente no curso universitário de administração e finanças, com ótimas notas. "ninguém é mais exigente do que nós". Ela encontrou emprego em um banco, mas depois de apenas alguns meses se viu forçado a abandoná-lo. "Não consegui continuar. Estava pesando 35 kg (tem 1,63 m de altura), e passava o tempo todo enjoada; não conseguia nem mesmo manter uma conversa concentrada, ou ler. Foi um período de imensa angústia para mim".
Jiménez diz que não consegue compreender a modelo que posou para o anúncio, nem o fotógrafo que registrou as imagens e a marca que as está utilizando para fins de publicidade. E pela simples razão de que "isso não equivale a lutar contra a anorexia. Minhas companheiras e eu acreditamos que seja o contrário, aliás, e que o anúncio a fomente. As pessoas saudáveis decerto sentirão repulsa, mas posso garantir que, para uma mulher doente de anorexia, aquela imagem pode passar a representar um objetivo a ser atingido. Somos muito competitivas e, para nós, perder peso é um grande desafio".
Pergunto se para ela isso continua a ser verdade. "Não no meu caso pessoal, agora, porque já estou bem recuperada, ainda que seja necessário que eu mantenha a cautela. A mim, uma imagem como aquela só serve para causar dor".
Jiménez passou por diversas internações nas unidades de psiquiatria de um centro hospitalar. "Mas quando me internavam, eu ganhava peso, ou seja, o aspecto físico da enfermidade era tratado, mas não o psicológico", o que fazia com que ela passasse por recaídas depois de cada internação. Até que um dia ela terminou levada quase morta ao hospital, com pressão arterial perto do zero. "Daquela vez, achei que tudo tinha chegado ao fim".
Porque passou por tantas experiências dolorosas a esse ponto, ela está convencida de que a campanha da No-l-ita não ajuda em nada na luta contra a anorexia. Mas aprova iniciativas como a de proibir que modelos com peso abaixo de um mínimo desfilem profissionalmente nas passarelas. "Sei que é muito difícil compreender para pessoas que não sofram da mesma enfermidade que eu, mas o ponto é que se uma moça vê um vestido tamanho 32, fica obcecada por emagrecer a ponto de caber naquela roupa. O objetivo? Ficar o mais parecida possível com as modelos que desfilam aqueles trajes".
Jiménez acredita, mesmo assim, que estejam sendo dados passos positivos na luta contra os distúrbios de comportamento vinculados à alimentação. Ela acredita que todos os debates sobre a realidade dos tamanhos de roupa tenham feito com que os modelos à venda nas lojas de moda estejam mais adaptados ao corpo real das mulheres espanholas. Em sua opinião, isso ajuda "enormemente". Se não houver modelos tamanho 32, é improvável que uma jovem fique obcecada com a idéia de se enfiar em uma roupa que parece mais adequada a uma criança do que a um adulto.
Depois de três meses de internação no instituto, Jiménez, que vive em Alicante, agora está enfim preparada para voltar à vida cotidiana. De fato, já começou a fazê-lo, e está dormindo em sua casa todas as noites. "Eu já me recuperei, quanto ao peso. Mas a questão psicológica é coisa bastante diferente. Creio que esteja passando bem, mas é preciso avançar passo a passo", ela diz, com cautela.
Reconhece ter medo de voltar a enfrentar a questão da alimentação, fora do instituto, mas acredita que será capaz de superá-lo, em breve. "Aqui nos ensinam a viver com objetivos. Quero trabalhar, quero ser mãe...". O instituto atende, no momento, a 70 pacientes em seus dois centros de internação, a outros 50 em uma clínica diurna, a 20 outros pacientes em um centro de acompanhamento e a outros 30 por meio de consultas em seus três andares dedicados à terapia.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia