Após dez anos, diminui interesse por Diana

29 de agosto de 2007 • 14h08 • atualizado em 30 de agosto de 2007 às 15h14

Resta pouco da emoção que tomou os britânicos quando do acidente em que morreu a ex-mulher do príncipe Charles, em 31 de agosto de 1997, em Paris, e a família real britânica reconquistou seu prestígio. Os 10 anos não acrescentaram lustro ao mito de Diana. Como no caso do assassinato do presidente John Kennedy ou dos atentados de 11 de setembro, as pessoas perguntam umas às outras onde estavam quando ela morreu, e quase todos são capazes de responder a pergunta.

Todos guardam na memória o último final de semana de agosto de 1997, a imagem do Mercedes S-280 retorcido contra o 13° pilar do túnel de Alma, em Paris, o anúncio pela BBC sobre a morte da princesa, às 4h44min, seguido pela execução do hino britânico. Depois, a semana louca em que o reino chorou sua "princesa do povo", para retomar a expressão empregada por Tony Blair, as flores espalhadas diante do palácio de Kensington, a indignação do povo londrino para com a família real, a parada fúnebre à qual três milhões de pessoas compareceram, enquanto outros dois bilhões de telespectadores acompanhavam ao vivo de todo o mundo.

Hoje, porém, pouco parece restar do mito de Diana ¿ uma "Dianalândia" kitsch em Althorp, nos Midlands; uma fonte no Hyde Park, sujeita a freqüentes enguiços; um pequeno playground do lado de fora do palácio de Kensington; um memorial sinistro no pé da escada rolante da loja de departamentos Harrods. E isso é praticamente tudo.

Como sinal dessa falta de interesse, as doações ao Diana Memorial Fund caíram de 100 milhões de libras em 1998 a 222 mil libras em 2006. O número de visitantes ao memorial de Althorp caiu à metade entre 2004 e 2007. Por força da efeméride, cerca de 15 novos títulos sobre Diana chegaram às livrarias desde o começo do ano, mas não encontram compradores.

O muito esperado "Diana Chronicles", de Tina Brown, foi massacrado pela crítica, devido à falta de novos elementos. Além disso, Sarah Bradford, biógrafa oficial da família real britânica, acusa a jornalista norte-americana de ter plagiado um de seus livros. "Diana¿s Last Love", de Kate Snell, consagrado ao cardiologista de origem paquistanesa Hasnat Khan, supostamente a última grande paixão de Diana, foi recebida com indiferença generalizada.

E, no aspecto oficial, a atenção é mínima: um serviço religioso está marcado para 31 de agosto em Londres, e uma pequena exposição em honra da princesa ocupará o palácio de Kensington. Diana, que tinha 36 anos quando morreu, simplesmente desapareceu da paisagem pública.

Em 2002, a princesa mártir ocupou o terceiro posto em uma pesquisa conduzida pela BBC sobre os grandes britânicos de todos os tempos. A morte dela, de acordo com outra pesquisa, era vista como o principal acontecimento do mundo anglo-saxão no século 20, superando o final da Segunda Guerra Mundial e a conquista do direito de voto pelas mulheres.

A mesma pesquisa, repetida hoje, teria resultados bastante diferentes. O que aconteceu, em 10 anos? O país hoje se sente embaraçado por se ter identificado com uma personalidade que, apesar de compassiva, era também manipuladora, e que, embora tenha sido vítima de manobras da família real, não deixava também de sofrer de cerra mania de perseguição.

Em "Faking It", um livro cujo tema é a sentimentalização da sociedade moderna, Anthony Hear, professor de filosofia da Universidade de Bradford, vê na emoção coletiva de parte dos britânicos com a morte de Diana "o efeito do apetite voraz do país pela expressão de sentimentos, a negação da realidade que afeta cada aspecto de nossa existência, hoje".

Hear, antigo diretor do respeitado Instituto Real de Filosofia, afirma que "a beatificação pessoal de Diana envolve igualmente a beatificação de seus valores ¿a preeminência do sentimento, da imagem e da espontaneidade sobre a razão, a realidade e a reserva".

Um segundo elemento explica o desinteresse. Depois da cerimônia fúnebre, Lorde Spencer, o irmão de Diana, que fez um discurso de crítica à família real na abadia de Westminster, e Mohammed Al-Fayed, pai do namorado da princesa, Dodi, vítima fatal do mesmo acidente que a matou, estavam no ápice de sua popularidade. Mas os erros que cometeram levaram a opinião pública a retomar seu apreço pela família real.

O divórcio de Lorde Spencer na África do Sul, acompanhado com atenção minuciosa pela mídia, aconteceu menos de dois meses depois do funeral de sua irmã, e prejudicou sua popularidade. Mas o que mais o prejudicou foi a acusação, amplificada pela máquina de mídia do Palácio de Buckingham, de que ele estava explorando financeiramente a morte da irmã, já que apenas 10% das receitas de Dianaland se destinam às causas defendidas pela princesa.

O segundo vilão é Al-Fayed. Aplaudido, no passado, ele agora perdeu todo o prestígio. As acusações fantásticas que fez contra a família real causaram choque, e muitos crêem que elas tenham como causa os seus revezes comerciais. Em relatório publicado em 14 de dezembro de 1906, o antigo comandante da Scotland Yard nega categoricamente a teoria de que uma conspiração comandada pelo príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II, tenha assassinado a princesa para impedir que ela se casasse com um muçulmano.

O relatório afirma que não existe qualquer indício de contato entre Philip e o serviço secreto britânico, como alega Al-Fayed. Caso as conclusões do relatório sejam confirmadas quando o inquérito for reaberto, em outubro, o magnata egípcio poderá ser condenado a pagar gigantescas indenizações civis às partes difamadas.

O elemento final da queda do prestígio de Diana é "The Queen", o filme de Stephen Frears, no qual a rainha é a heroína, o que marca a reconquista do afeto popular pela família real. A maioria dos britânicos quer ver Charles como sucessor de sua mãe no trono, mesmo que isso signifique que Camilla, a rival de Diana, se torne rainha. Apesar dos escândalos dos anos 90, os britânicos voltaram a ser legitimistas, porque a família real representa um ponto fixo em meio à tormenta planetária.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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