Todos guardam na memória o último final de semana de agosto de 1997, a imagem do Mercedes S-280 retorcido contra o 13° pilar do túnel de Alma, em Paris, o anúncio pela BBC sobre a morte da princesa, às 4h44min, seguido pela execução do hino britânico. Depois, a semana louca em que o reino chorou sua "princesa do povo", para retomar a expressão empregada por Tony Blair, as flores espalhadas diante do palácio de Kensington, a indignação do povo londrino para com a família real, a parada fúnebre à qual três milhões de pessoas compareceram, enquanto outros dois bilhões de telespectadores acompanhavam ao vivo de todo o mundo.
Hoje, porém, pouco parece restar do mito de Diana ¿ uma "Dianalândia" kitsch em Althorp, nos Midlands; uma fonte no Hyde Park, sujeita a freqüentes enguiços; um pequeno playground do lado de fora do palácio de Kensington; um memorial sinistro no pé da escada rolante da loja de departamentos Harrods. E isso é praticamente tudo.
Como sinal dessa falta de interesse, as doações ao Diana Memorial Fund caíram de 100 milhões de libras em 1998 a 222 mil libras em 2006. O número de visitantes ao memorial de Althorp caiu à metade entre 2004 e 2007. Por força da efeméride, cerca de 15 novos títulos sobre Diana chegaram às livrarias desde o começo do ano, mas não encontram compradores.
O muito esperado "Diana Chronicles", de Tina Brown, foi massacrado pela crítica, devido à falta de novos elementos. Além disso, Sarah Bradford, biógrafa oficial da família real britânica, acusa a jornalista norte-americana de ter plagiado um de seus livros. "Diana¿s Last Love", de Kate Snell, consagrado ao cardiologista de origem paquistanesa Hasnat Khan, supostamente a última grande paixão de Diana, foi recebida com indiferença generalizada.
E, no aspecto oficial, a atenção é mínima: um serviço religioso está marcado para 31 de agosto em Londres, e uma pequena exposição em honra da princesa ocupará o palácio de Kensington. Diana, que tinha 36 anos quando morreu, simplesmente desapareceu da paisagem pública.
Em 2002, a princesa mártir ocupou o terceiro posto em uma pesquisa conduzida pela BBC sobre os grandes britânicos de todos os tempos. A morte dela, de acordo com outra pesquisa, era vista como o principal acontecimento do mundo anglo-saxão no século 20, superando o final da Segunda Guerra Mundial e a conquista do direito de voto pelas mulheres.
A mesma pesquisa, repetida hoje, teria resultados bastante diferentes. O que aconteceu, em 10 anos? O país hoje se sente embaraçado por se ter identificado com uma personalidade que, apesar de compassiva, era também manipuladora, e que, embora tenha sido vítima de manobras da família real, não deixava também de sofrer de cerra mania de perseguição.
Em "Faking It", um livro cujo tema é a sentimentalização da sociedade moderna, Anthony Hear, professor de filosofia da Universidade de Bradford, vê na emoção coletiva de parte dos britânicos com a morte de Diana "o efeito do apetite voraz do país pela expressão de sentimentos, a negação da realidade que afeta cada aspecto de nossa existência, hoje".
Hear, antigo diretor do respeitado Instituto Real de Filosofia, afirma que "a beatificação pessoal de Diana envolve igualmente a beatificação de seus valores ¿a preeminência do sentimento, da imagem e da espontaneidade sobre a razão, a realidade e a reserva".
Um segundo elemento explica o desinteresse. Depois da cerimônia fúnebre, Lorde Spencer, o irmão de Diana, que fez um discurso de crítica à família real na abadia de Westminster, e Mohammed Al-Fayed, pai do namorado da princesa, Dodi, vítima fatal do mesmo acidente que a matou, estavam no ápice de sua popularidade. Mas os erros que cometeram levaram a opinião pública a retomar seu apreço pela família real.
O divórcio de Lorde Spencer na África do Sul, acompanhado com atenção minuciosa pela mídia, aconteceu menos de dois meses depois do funeral de sua irmã, e prejudicou sua popularidade. Mas o que mais o prejudicou foi a acusação, amplificada pela máquina de mídia do Palácio de Buckingham, de que ele estava explorando financeiramente a morte da irmã, já que apenas 10% das receitas de Dianaland se destinam às causas defendidas pela princesa.
O segundo vilão é Al-Fayed. Aplaudido, no passado, ele agora perdeu todo o prestígio. As acusações fantásticas que fez contra a família real causaram choque, e muitos crêem que elas tenham como causa os seus revezes comerciais. Em relatório publicado em 14 de dezembro de 1906, o antigo comandante da Scotland Yard nega categoricamente a teoria de que uma conspiração comandada pelo príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II, tenha assassinado a princesa para impedir que ela se casasse com um muçulmano.
O relatório afirma que não existe qualquer indício de contato entre Philip e o serviço secreto britânico, como alega Al-Fayed. Caso as conclusões do relatório sejam confirmadas quando o inquérito for reaberto, em outubro, o magnata egípcio poderá ser condenado a pagar gigantescas indenizações civis às partes difamadas.
O elemento final da queda do prestígio de Diana é "The Queen", o filme de Stephen Frears, no qual a rainha é a heroína, o que marca a reconquista do afeto popular pela família real. A maioria dos britânicos quer ver Charles como sucessor de sua mãe no trono, mesmo que isso signifique que Camilla, a rival de Diana, se torne rainha. Apesar dos escândalos dos anos 90, os britânicos voltaram a ser legitimistas, porque a família real representa um ponto fixo em meio à tormenta planetária.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde