María-Paz López
Espanha
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O fedor deste delito do crime organizado foi denunciado na semana passada em Roma, com a apresentação do relatório Ecomáfia 2007, produzido pela associação Legambiente, que anos atrás inventou o termo ecomáfia para designar essa atividade criminosa em ascensão.
De acordo com o relatório, as quatro máfias italianas (Cosa Nostra, na Sicília; Camorra, em Nápoles; 'Ndrangheta, na Calábria; e Sacra Corona Unita, na região da Apúlia) faturam 23 bilhões de euros anuais com esse tipo de atividade, e a montanha de resíduos que desaparece a cada ano como que por um passe de mágica é tão alta quanto o Gran Sasso, monte de 2,6 mil metros localizado 120 km a leste de Roma. As quatro regiões, que historicamente abrigam forte presença da máfia, geraram 49,5% dos resíduos ambientais italianos, com destaque especial para a Campania, região de que Nápoles é a capital, e para a Sicília.
"A Itália sofre mais de crimes ecológicos do que outros países europeus, porque as máfias introduziram os negócios ambientais em seu quadro de atividades de maneira estável", disse Roberto Della Seta, presidente da Legambiente. "Por isso, é importante dar às forças da ordem condições melhores para a tarefa de repressão das ecomáfias, e trabalhar para prevenir suas atividades".
O sistema que no ano passado fez desaparecer cerca de 26 milhões de t de lixo funciona mais ou menos como descreve o escritor Roberto Saviano em seu livro "Gomorra", publicado no ano passado, que lhe valeu ameaças da Camorra e o forçam a viver sob proteção de seguranças. Funciona assim: um mediador especializado em questões ambientais procura empresas químicas, fábricas de plástico ou curtumes, em qualquer parte da Itália, e lhes oferece serviços de eliminação de resíduos industriais a um determinado preço.
A proposta é sempre melhor do que eliminar os resíduos legalmente, ainda que o mediador jamais transmita a idéia de que se trata de uma atividade ilícita, e a empresa finge não perceber que o seja. Por exemplo, uma operação policial em 2004 revelou que, se o custo da eliminação legal de resíduos variava de 12 a 62 centavos de euro por kg, as famílias mafiosas podiam se ocupar do problema por 10 centavos de euro o kg. O mediador coloca em contato os interessados de ambas as partes ¿ empresas que só pensam nos lucros e famílias mafiosas que lucram com isso.
A sujeira, industrial ou urbana, ou submetida a misturas que servem para camuflar os resíduos tóxicos, termina despejada em depósitos ilegais de lixo ou fossas cavadas junto a campos aráveis. Quando o volume é grande demais, os mafiosos incineram o lixo. "Os chefes da máfia não têm escrúpulos em recobrir suas próprias cidades de veneno, nem de contaminar as terras que cercam suas residências", escreveu Saviano em "Gomorra". "A vida de um chefe criminal é curta, e o poder de uma família mafiosa, em meio a vinganças, detenções, massacres e sentenças de prisão perpétua, não pode durar muito".
Por falta de espaço, a ecomáfia procura locais de depósito no exterior, e a China é um destino em alta, se bem que lixo seja enviado ilegalmente também à Síria, Croácia, Áustria, Índia, Noruega, França e norte da África. Dos resíduos enviados à China, 90% são abandonados em contêineres na costa, e os moradores das cidades vizinhas os abrem para aproveitar o que puderem, o que acarreta evidentes riscos de saúde.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia