A escritora britânica Agatha Christie tem diversos videogames baseados em suas obras. Mencionar Long John Silver ou seu inseparável companheiro, o papagaio Capitão Flint, evoca inevitavelmente uma era de piratas impiedosos, tesouros ocultos e aventuras em ilhas paradisíacas. Um torvelinho de perigos e personagens fantásticos que, desde 1883, habitam as páginas de "A Ilha do Tesouro", livro do escocês Robert Louis Stevenson.
No entanto, parece que os livros deixaram de ser o habitat exclusivo desses personagens de ficção. O estúdio francês Kheops lançou, em março, o videogame "Rumo à Ilha do Tesouro", baseado no clássico de Stevenson. O pequeno Jim Hawkins, o velho bucaneiro e o papagaio tagarela ressurgem, ainda que dessa vez em formato digital.
E a aposta da produtora de videogames quanto a versões de clássicos literários não é inédita. Autores famosos como Jules Verne, Agatha Christie, Hans Christian Andersen ou H. P. Lovecraft serviram de inspiração a programadores de videogames, que adaptaram alguns de seus romances para o mundo virtual, com maior ou menor originalidade.
O apego ao argumento original varia muito de jogo a jogo. Assim, o recente "Rumo à Ilha do Tesouro" não se atém muito à história de Stevenson, se bem mantenha a fidelidade com relação aos protagonistas do livro. Na última versão virtual do mundo de corsários e grumetes, a situação que o jogo propõe se passa quatro anos depois dos acontecimentos narrados no romance. O pequeno Jim se tornou um jovem capitão de navio, e parte para a ilha Esmeralda em busca de um tesouro que foi escondido lá pelo pirata Long John Silver.
E se Stevenson foi o último a chegar a essa biblioteca virtual de videogames, o escritor francês Jules Verne é um de seus sócios honorários. Depois do lançamento de "Retorno à Ilha Misteriosa", videogame de título quase homônimo a um de seus livros, a produtora de videogames The Adventure Company quis celebrar o centenário da morte do escritor, um ano mais tarde, com outra novidade: "Viagem ao Centro da Lua", livremente inspirado nos livros "Da Terra à Lua¿ e "Ao Redor da Lua".
A boa aceitação desses videogames baseados nas obras de Verne se assemelha ao que acontece no caso do mestre da literatura de terror, o norte-americano H. P. Lovecraft, cuja obra inspirou grande número de videogames em variados gêneros, entre os quais a saga "Alone in the Dark" e títulos como "Necromicon", "Prisoner of Ice" e o recente "Chtulhu: Dark Corners of the Earth", para o console Xbox.
Mas não só de fantasia vivem os videogames. Romances policiais e de mistério também oferecem sucesso na transição da página ao console. Nesse gênero, o destaque é Agatha Christie, mestra da literatura de mistério. "O Caso dos 10 Negrinhos" foi seu primeiro romance convertido em videogame, em 2005, com o título "And Then There Was None" (será lançado em versão para o Wii em novembro). "Assassinato no Expresso do Oriente" chegou às lojas em dezembro passado. Em outubro, o detetive Hercule Poirot voltará aos consoles, em "Evil Under the Sun".
Há planos para levar outros livros de Christie ao mundo do videogame nos próximos anos. Já a Guppywork apostou na digitalização do mundo fantástico do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. O escritor serve como protagonista a "The Ugly Prince Duckling" o príncipe patinho feio, cujo objetivo é salvar o mundo das trevas com a ajuda dos personagens fantásticos idealizados pelo criador do Patinho Feio.
Por meio de piratas, detetives, cientistas ou escritores, eis uma nova forma de aproximação, ainda que virtual, com os grandes da literatura.

- La Vanguardia

