Pesquisa testa como cérebro faz juízos morais

23 de março de 2007 • 13h56 • atualizado às 13h57

Você jogaria uma pessoa sobre os trilhos de uma ferrovia a fim de deter um trem sem freios e dessa maneira salvar a vida de cinco outras pessoas? Ou acionaria uma alavanca de desvio de pista que faria com que o trem sem freios evitasse atropelar cinco pessoas mas o conduziria a um ramal ferroviário em que uma pessoa seria atropelada?

Diante de dilemas como esses, as pessoas que sofreram danos em uma região cerebral essencial para o processamento de emoções oferecem respostas distintas das pessoas cujos cérebros não apresentam lesões, de acordo com uma pesquisa conduzida por Antonio Damasio, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, e publicada na edição de hoje da revista Nature. A pesquisa confirma que juízos morais requerem processamento das emoções pelo cérebro, e não podem se basear exclusivamente na lógica.

Estudos anteriores da equipe comandada por Damasio demonstraram que as pessoas emocionalmente saudáveis oferecem respostas que podem parecer ilógicas a esse tipo de desafio - por exemplo, não jogariam uma pessoa inocente sobre os trilhos diante do trem, mas desviariam a locomotiva para outro ramal ainda que isso resultasse em atropelamento do inocente. O que está em jogo em ambos os casos é a mesma coisa: escolher entre a morte de uma pessoa e a morte de cinco. Mas existe uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal ventromedial (CPVM), responsável por regular as emoções sociais, como a compaixão, a vergonha e o sentimento de culpa, e que inibe os comportamentos prejudiciais a terceiros.

Na nova pesquisa, os neurocientistas propuseram a seis pessoas que sofreram lesões nessa região do cérebro 21 questões que envolviam dilemas semelhantes aos dos casos da ferrovia. As respostas foram comparadas às de 24 outros voluntários. Os testes demonstram que os pacientes que sofreram danos no CPVM mantêm intacta sua capacidade de raciocínio, o conhecimento das normas morais e sociais e a vontade de fazer o que é certo. Mas não têm emoções sociais, e por isso suas respostas a esse tipo de dilema se baseiam exclusivamente na lógica: tirariam a vida do inocente.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

La Vanguardia
 
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