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Colaborador da Wikipédia tinha lado fictício

05 de março de 2007 19h21 atualizado às 21h39

Em um piscar de olhos, a sabedoria coletiva se tornou fúria coletiva. Nos últimos dias, os colaboradores da popular enciclopédia online Wikipédia se voltaram contra um de seus colegas, depois de descobrirem que ele havia criado uma complicada identidade falsa.

Sob o nome Essjay, o colaborador editou milhares de artigos na Wikipédia, e no passado era uma das pessoas autorizada a lidar com casos de vandalismos e a arbitrar disputas entre os autores de verbetes.

No mundo da Wikipédia, Essjay era um professor universitário de teologia em uma universidade particular, especialista em lei canônica, de acordo com seu perfil. Mas, na realidade, Essjay era o pseudônimo de Ryan Jordan, 24 anos, que estudou em diversas faculdades do Kentucky e vive nas proximidades de Louisville. Jordan alega ter recorrido a uma persona fictícia para se proteger contra os colaboradores e leitores que poderiam desaprovar seu papel administrativo na Wikipédia. (Ele não respondeu a um e-mail nem a mensagens sobre o assunto encaminhadas a ele pelos escritórios da Wikipédia.)

O episódio de Essjay sublinha alguns dos perigos de esforços colaborativos como a Wikipédia, que dependem da colaboração de grande número de pessoas que agem de boa fé, muitas vezes de maneira anônima, com nomes de usuário que elas mesmas propõem. Mas também demonstra como a transparência do processo de edição da Wikipédia ¿todas as alterações são marcadas e arquivadas- permite que os leitores reajam a suspeitas de fraude. Os problemas quanto a Jordan vieram a público na segunda-feira passada, quando a revista New Yorker publicou uma rara nota do editor, como parte de um longo perfil da Wikipédia. A nota afirmava que "nem nós nem a Wikipédia sabemos o nome real de Essjay", e que os dados contidos no perfil do autor vinham sendo aceitos como reais, mas sem verificação.

Além de suas credenciais profissionais e trabalho em artigos sobre o catolicismo, Essjay foi descrito pela revista, em uma nota talvez pouco apropriada a um estudioso da religião, como responsável por remover duas vezes uma afirmação "que ele sabia falsa" em um artigo sobre o cantor Justin Timberlake. Depois que o artigo foi publicado, um leitor contactou a New Yorker e informou que Jordan havia revelado a identidade real de Essjay, sem grande alarde, quando foi contratado pela Wikia, uma empresa com fins lucrativos.

Em mensagem de e-mail enviada sexta-feira, Pamela Maffei McCarthy, editora assistente da New Yorker, disse que "o material obtido de Essjay não nos incomoda porque a Wikipédia confirmou os dados que ele havia editado, e porque a enciclopédia online o endossou. Mas deveríamos ter informado os leitores de que nossa única informação sobre a identidade de Essjay provinha dele mesmo". O texto da New Yorker terminava com um comentário forte de Jimmy Wales, fundador da Wikipédia e uma das forças dominantes em seu processo de crescimento. "Considero que se trate de um pseudônimo, e não tenho restrições a isso", afirmou ele sobre o alter ego de Jordan.

Na quinta-feira, Wales, que está viajando pela Ásia e não dispõe de conexão permanente com a Internet, voltou a defender a mesma posição. Em comunicado divulgado pelo relações públicas da Wikipédia, ele disse que "Essjay pediu desculpas a mim e à comunidade por qualquer dano que possa ter causado, mas agiu como agiu para se proteger. Aceitei suas desculpas", afirmou Wales, "porque ele sempre foi e continua sendo um editor excelente, com um histórico exemplar".

Mas os usuários da Wikipédia como um todo não se mostraram tão compreensivos. A ira crescente foi expressa em fóruns públicos como as páginas de usuários de Essjay e Wales. Inicialmente, algumas pessoas escreveram expressando apoio a Essjay, a exemplo de WJBscribe, que deixou mensagem afirmando que "gostaria de expressar meu completo apoio a tudo que você fez por aqui. Acredito que você tenha todo o direito de proteger sua identidade. Não permite que a controvérsia o desanime". Mas no sábado, as opiniões dominantes eram resumidas por títulos como "Essjay deve renunciar ao posto", e por mensagens que classificavam as ações do editor como fraude, pura e simples. Alguns dos usuários disseram que Essjay havia agravado ainda mais a situação ao alegar que tinha um doutorado, e que era professor titular em uma universidade, o que influencia as decisões editoriais do site.

"As pessoas avaliaram os artigos que ele editou e descobriram exemplos de situações em que ele simplesmente se aproveitou de suas falsas credenciais para emprestar mais peso aos seus argumentos", disse Michael Snow, administrador da Wikipédia e fundador do Wikipedia Signpost, jornal que cobre a comunidade e que vem acompanhando a história. "Todos esses artigos terão de ser reavaliados". Em uma discussão sobre a edição do verbete sobre o uso do termo "imprimatur" no catolicismo, Essjay defendeu seu uso do livro "Catholicism for Dummies", um manual básico de informações sobre a religião, alegando que "muitas vezes recomendo esse texto a meus alunos, e apostaria meu doutorado em sua credibilidade".

Ao longo do tempo, dizem usuários da Wikipédia, Essjay passou a editar e escrever menos, e a dedicar mais tempo a impedir ao máximo os atos de vandalismo e as grandes disputas entre autores de versões antagônicas para determinados verbetes da enciclopédia.

No sábado, Wales terminou por mudar de opinião sobre o episódio. Limpou a seção de comentários de sua página pessoal na Wikipédia, em geral superlotada de pedidos, debates quanto a normas e cumprimentos, para "dar aos meus comentários a atenção merecida", e anunciou que havia pedido que Essjay renunciasse aos seus cargos de confiança. Jordan anunciou sua renúncia em sua página pessoal da Wikipédia, sábado, afirmando simplesmente que "é hora de me afastar completamente".

The New York Times
The New York Times