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 Chilenos ainda procuram vítimas e pedem justiça

Estudante carrega bandeira do Chile em protesto este ano. Foto: Reuters

Estudante carrega bandeira do Chile em protesto este ano
Foto: Reuters

Com o golpe de Estado de 1973 os chilenos conheceram, pela primeira vez, o significado dos direitos humanos, de cuja violação foram vítimas, durante 17 anos, um milhão e meio de pessoas.

Trinta anos depois do 11 de setembro de 1973, o Chile continua tentando fechar as feridas que não cicatrizam, atrás de uma reconciliação impossível quando ainda se buscam em valas clandestinas os restos mortais dos desaparecidos.

Os detidos desaparecidos não permitiram o esquecimento nem o perdão, e sua memória irrompe cada vez que um juiz ordena uma escavação, ou um repressor arrependido conta como os lançaram ao mar ou os enterraram no deserto.

As cifras são brutais: 3.197 vítimas, das quais 1.197 são detidos desaparecidos. Entre eles havia 68 menores de idade e 62% tinha entre 16 e 30 anos. Segundo os arquivos oficiais e de organismos humanitários, dez mulheres foram executadas junto a seus filhos, e nove crianças nasceram de mães que depois foram desaparecidas em prisões.

A estas cifras se somam os torturados, que nunca foram contabilizados e que se calculam em cem mil, e em 500 mil os presos políticos, exilados e exonerados. O presidente Ricardo Lagos, em uma tentativa de dar uma resposta de verdade, justiça e reparação ao drama que escondem estas cifras, divulgou em 12 de agosto uma proposta para avançar nos temas pendentes em direitos humanos, aplaudida pelos setores políticos mas rechaçada pelas vítimas.

A proposta oferece a imunidade àqueles que entregarem informação sobre violações aos direitos humanos e que não tenham sido acusados até agora. "Não vamos aceitar isto, a imunidade é impunidade. A saída é uma só e é através dos tribunais de Justiça", disse Viviana Díaz, secretária do Agrupamento de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD).

"Agora, depois de 13 anos, vemos que fomos muito inocentes em pensar que quando voltasse a democracia iríamos reencontrar nossos familiares e se ia fazer justiça", afirmou Díaz, que em 2003 pôde comemorar o processo dos culpados do desaparecimento de seu pai, embora ainda não tenha podido chorar ante seu túmulo.

"Não sei onde está meu pai, essa é a pior incerteza que alguém pode viver", afirmou Viviana, que ao fazer um balanço situa a detenção de Pinochet durante 503 dias, em Londres, como "a maior alegria destes anos para os familiares das vítimas".

Pouco antes da detenção, um ex-presidente da Corte Suprema lhes havia dito que elas eram "um grito no deserto", por pretender que a Justiça deteria o ex-ditador (1973-1990). Mas, em 16 de outubro de 1998, a Justiça britânica ordenou a detenção de Pinochet a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, ante o qual havia comparecido Viviana Díaz e outros dirigentes do Agrupamento.

Progressos na busca por justiça
"A descoberta de 180 corpos em valas comuns em diferentes partes do país e a designação de juízes com dedicação exclusiva às violações dos direitos humanos são também parte do balanço positivo", lembrou a vice-presidente da AFDD, Mireya García.

Estes juízes conseguiram nos dois últimos anos abrir 300 processos contra mais de 200 militares, entre eles uma dúzia de generais reformados e os líderes máximos da repressão, "um marco após 28 anos de estancamento", admitiu García.

O diretor regional da Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, concorda, mas acrescenta à lista a tese da Corte Suprema de que a lei de anistia não impede a investigação e determinação dos culpados e a reparação aos torturados.

O mais importante foi a constituição em 1990 da "Comissão de Verdade e Reconciliação", que documentou o horror dos crimes da ditadura e cujo relatório comoveu o então presidente, Patricio Aylwin (1990-94) que, com lágrimas nos olhos, pediu perdão em nome do Estado.

Em 1999, o presidente Eduardo Frei convocou à "Mesa de Diálogo", que reuniu civis e representantes das Forças Armadas, e cujo trabalho terminou com um relatório em que os militares deram a conhecer o destino de 200 desaparecidos, embora em sua maioria os dados tenham se mostrados falsos.

Depois desta experiência, as vítimas reafirmaram neste 30º aniversário sua inquebrantável escolha pelo caminho judicial. O testemunho de Carmen Vivanco, de 87 anos e que perdeu seu marido, além de filho, irmão, cunhada e sobrinho, fala por si só.

"Pinochet me fez viver torturada todos estes anos pensando em meus familiares. Quero que se faça justiça. Liquidaram suas vidas e a minha vida, mas não minha mente. Seguirei lutando", reafirmou.

EFE
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