Professora pode ser presa por acessar site pornô

14 de fevereiro de 2007 • 18h26 • atualizado às 20h53
Julie Amero, professora substituta em uma escola ginasial em Norwich, Connecticut, ao lado do marido Foto: AP
Julie Amero, professora substituta em uma escola ginasial em Norwich, Connecticut, ao lado do marido
14 de fevereiro de 2007
Foto: AP

Julie Amero, professora substituta em uma escola ginasial em Norwich, Connecticut, disse que estava simplesmente tentando mandar um e-mail ao marido. As autoridades contestam alegando que, propositalmente ou talvez por descuido, ela terminou expondo seus alunos de 11 e 12 anos a imagens pornográficas.

» Spyware pode levar professora à prisão

No mês passado, Amero foi condenada por quatro acusações de causar riscos a crianças, e pode ser sentenciada a uma pena de prisão de até 40 anos, em uma audiência judicial marcada para 2 de março. Ela insiste ser inocente, e preferiu não aceitar um acordo que a forçaria a admitir culpa mas permitiria que escapasse sem uma sentença de prisão. A professora alega ser tecnófoba e desprevenida, o que a teria levado a não desconectar o computador que causou os problemas.

Amero, 40 anos, professora substituta com longa experiência de ensino, diz que, quando chegou à Kelly Middle School, naquele dia de outubro de 2004, pediu ao professor regular de artes da sétima série para usar o computador dele, porque queria enviar um e-mail ao marido. Mas antes ela foi ao banheiro, e quando voltou o professor não estava na sala e os alunos estavam reunidos em torno do computador, observando um site sobre estilos de penteado. Quando Amero tentou fechar o browser, terminou recebendo uma barragem interminável de anúncios de sites pornográficos.

As imagens continuaram chegando ao computador o dia todo, "porque não sei nada sobre computadores", ela afirmou em entrevista.

Amero planeja apelar da condenação, e diz que recebeu ofertas de advogados interessados em representá-la gratuitamente junto à instância superior. Os administradores do sistema escolar e os promotores públicos a acusaram de uma série de delitos, que começavam com passar muito tempo contemplando o site e terminavam em visita deliberada a sites pornográficos, e alegaram que, se ela tinha mesmo sido vítima involuntária de um bombardeio de publicidade explícita, deveria ter procurado ajuda, bloqueado a tela ou pelo menos desconectado a máquina. "Ela poderia ter desligado o computador", disse David J. Smith, procurador assistente do Estado, ao encerrar a acusação. Amero insistiu durante os interrogatórios que ela jamais desligou um computador sem ajuda, e não sabia nem mesmo como desligar o monitor.

Uma campanha via Internet transformou o caso em uma causa célebre para os adversários da tecnologia em todo o mundo. Diversos especialistas em computação que acompanharam o caso disseram que programas conhecidos como spyware e malware poderiam ter tomado o controle do browser, e gerado visitas a sites pornográficos sem envolvimento dos usuários, além de poderem ter criado os registros de visitas que ajudaram na condenação de Amero. Craig Ellison, analista setorial e no passado encarregado do laboratório de computação da PC Magazine, alertou em entrevista que "esse tipo de coisa pode acontecer", especialmente "se a pessoa está usando um sistema muito antigo".

Brian Livinsgton, editor do Windows Secrets, um boletim eletrônico de notícias sobre o sistema operacional da Microsoft, disse em entrevista que "os promotores deveriam estar perseguindo os produtores desses programas de spyware, e não professoras desajeitadas que têm relação zero com as imagens". O marido de Amero, Wes Volle, foi enfático ao declarar que ela não tinha nem mesmo idéia de como computadores funcionam, e que não sabia o que fazer quando os anúncios em formato pop-up começaram a pipocar na tela. Volle, que trabalha como designer gráfico, acusou o sistema escolar de sacrificar sua mulher a fim de desviar a atenção do fato de que não havia filtros adequados de conteúdo instalados nos computadores das escolas. "O computador estava infectado muito antes que Julie entrasse naquela sala", ele afirmou. Nenhum outro funcionário do distrito escolar do sudeste do Connecticut foi acusado com relação ao problema, e não há expectativa de que surjam novas acusações.

Durante o julgamento, Robert Hartz, gerente de serviços de informação das escolas de Norwich, disse que os filtros dos computadores, por meio dos quais os anúncios poderiam ter sido bloqueados, estavam inativos, porque não haviam passado por atualização em diversas semanas. Pam Aubin, supervisora das escolas de Norwich, disse em entrevista que Hartz havia determinado que uma atualização fosse realizada, mas que o fornecedor do software havia enviado o software requerido para o endereço errado de e-mail.

"Estamos falando de uma tragédia de erros", disse Nancy Willard, diretora do Centro de Uso Seguro e Responsável de Internet, sediado em Eugene, Oregon. Ela acrescentou que compreendia a situação de Amero, dizendo que "se ela é culpada, todos os pais e professores do país correm risco de prisão, porque em dado momento a tecnologia sem dúvida vai falhar, e as crianças ficarão expostas a materiais pornográficos".

Havia outra adulta, uma tradutora que acompanha um aluno que tem necessidades especiais de educação, presente na sala de aula durante todo o tempo do incidente, e ela testemunhou que Amero parecia preocupada quanto ao computador. De qualquer forma, os dirigentes da escola dizem não compreender que a professora substituta tivesse problemas que jamais aconteceram no caso de outros funcionários da instituição. "Ela merece uma sentença de 40 anos de prisão? Não", disse Aubin. "Acredito que ela usou o computador indevidamente enquanto havia alunos na sala de aula? Acredito". Quando questionada no tribunal sobre os motivos pelos quais ela não havia simplesmente puxado a tomada do computador, durante as seis horas que se seguiram ao incidente inicial, Amero respondeu que "fui instruída a jamais mexer em nada na sala de aula de um professor regular".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »