Quando a Igreja Católica desafiou Pinochet


A Igreja Católica foi a primeira voz a se levantar no Chile para denunciar as violações dos direitos humanos, após o golpe de Estado que há 30 anos colocou no poder a ditadura do general Augusto Pinochet. Cinco sacerdotes foram assassinados durante a repressão.

Apesar do drama vivido nas primeiras horas do golpe e nos 17 anos seguintes, com a seqüela de mais de 3 mil mortos e desaparecidos, o bispo emérito Jorge Houston lembra hoje, com mistura de dor e satisfação, o papel desempenhado pela Igreja.

"Foram anos dourados, foi maravilhoso", disse, ao evocar suas funções como bispo auxiliar de Santiago, junto com o cardeal Raúl Silva Henríquez e outros prelados que decidiram se tornar "a voz dos que não têm voz" quando a ditadura fechou o Parlamento, proibiu os partidos e iniciou a perseguição contra os que apoiavam o governo do presidente Salvador Allende.

Segundo Ascanio Cavallo, Manuel Salazar e Oscar Sepúlveda no livro "La Historia Oculta del Régimen Militar", depois do suicídio de Allende no palácio presidencial de La Moneda e dos primeiros fuzilamentos de seus partidários, a Igreja emitiu uma primeira declaração, na qual pedia "respeito aos vencidos". As novas autoridades quiseram impedir a publicação no jornal El Mercurio.

"A união nos fez fortes e fomos bastante intransigentes", conta Houston, hoje afastado do exercício episcopal na cidade de Temuco, 600 quilômetros ao sul de Santiago.

O governo militar e seus assessores ligados à direita e ao empresariado tinham razões para ver a Igreja com desconfiança, pela boa relação com o governo socialista de Allende e por ter entre os sacerdotes abertos partidários do socialismo.

"No socialismo há mais valores evangélicos que no capitalismo (...) De fato, o socialismo acende a esperança de que o homem possa ser mais pleno e, por si mesmo, mais evangélico", proclamava um documento de maio de 1971, assinado por 80 sacerdotes, seis meses antes do início do governo Allende.

Os atritos entre o regime de Pinochet e o clero se acentuaram com o passar dos dias e, em abril de 1974, o cardeal Silva Henríquez recebeu as primeiras ameaças de morte, revelou o próprio durante homilia de Páscoa em missa na Catedral Metropolitana de Santiago.

Entre as primeiras vítimas da repressão, em setembro de 1973, estava o religioso catalão Juan Alsina Bustos. Segundo depoimentos reunidos no processo, uma patrulha militar deteve e fuzilou o religioso, cujo corpo apareceu em uma das margens do rio Mapocho, que corta Santiago.

Juntaram-se a ele o sacerdote britânico Michel Woodword, o francês André Jarlan, o chileno Gerardo Pobrete e o espanhol Antonio Llidó, que desapareceu em outubro de 1974 após ter sido detido por agentes da polícia secreta Dina (Direção de Inteligência Nacional).

Pinochet exigiu a dissolução do Comitê de Cooperação para a Paz, criado pelas igrejas cristãs para ajudar os perseguidos políticos. No seu lugar, nasceu em 1975, o Vicariato da Solidariedade, a cargo do vigário Cristián Precht que durante a ditadura deu ajuda jurídica, material e espiritual aos familiares das milhares de vítimas da repressão.

"A Igreja salvou muitas vidas, de forma muito clara e com uma valentia extraordinária", afirma 30 anos depois o último vigário à frente da instituição, bispo Sergio Valech. Segundo ele, as preocupações da Igreja hoje se concentram na busca desta reconciliação que "terá que acontecer".

O caminho seguido pelos bispos chilenos teve legitimidade ainda maior quando o papa João Paulo II visitou o Chile, em abril de 1987, para apoiar seus esforços a favor da "reconciliação nacional".

O Santo Padre provocou, no entanto, certa polêmica ao aparecer ao lado de Pinochet, que se autoproclamava "católico, apostólico e romano", cumprimentando um grupo de partidários do regime da sacada do palácio La Moneda, ainda com as marcas das balas disparadas pelos militares no dia do golpe.

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