Foi com uma arma dada por Fidel Castro que Allende se suicidou |
Pinochet não era um militar qualquer, ele era chefe do Exército nomeado duas semanas antes pelo presidente, que o considerava um militar leal a seu governo. Apesar de nunca ter tido uma atuação de destaque em sua carreira militar, o general substituíra Carlos Prats, que deixou o cargo para assumir o Ministério do Interior em 23 de agosto de 1973.
Pinochet assumiu o comando do Exército dois dias depois, indicado pelo próprio Prats. Sua maior credencial era, aparentemente, não participar dos planos para derrubar Allende, que circulavam no interior do Exército. "Eu acreditava honestamente que este general compartilhava com sinceridade de minha profunda convicção de que a caótica situação chilena deveria ser resolvida politicamente, sem golpe militar, já que esta seria a pior solução", escreveu Prats em suas memórias.
O analista político Patricio Navia explicou que Pinochet foi nomeado para o cargo porque "não fazia parte dos golpistas nem era parte dos que poderiam isolar o general Prats". "Era um candidato de consenso porque não brilhava. Acreditava-se que ele seria leal ao governo porque não tinha grandes idéias nem iniciativas", afirmou. Aos olhos do presidente, Pinochet era um homem leal, recordou o ex-ministro da Economia de Allende, José Cademártori.
Cademártori acrescentou que o presidente, inclusive, quis entrar em contato com ele quando apareceram as primeiras notícias do golpe, na manhã da terça-feira 11 de setembro de 1973. "Chamem o Augusto, que é um dos nossos", teria dito Allende naquele dia, segundo relatos dos que o acompanharam na resistência à rebelião militar no palácio presidencial de La Moneda.
Mas Pinochet, que permanecia escondido em um quartel na região leste de Santiago dirigindo as ações dos golpistas, não respondeu ao chamado de Allende e, por intermédio de um emissário, exigiu sua rendição oferecendo-lhe um avião para partir ao exílio. "... E, no caminho os jogaremos de lá", gritou o militar, numa transmissão via rádio para outros oficiais golpistas, interceptada por um radioamador e publicada, em 1997, no livro "Interferência Secreta", da jornalista Patricia Verdugo.
Pinochet foi o último dos chefes das Forças Armadas a se unir ao golpe, escreveu em suas memórias o almirante José Toribio Merino, que assumiu o comando da Marinha nesse dia e morreu há sete anos. O ex-ditador garantiu a uma de suas biógrafas, a jornalista María Eugenia Oyarzún, que preparava o golpe em segredo desde o ano anterior. "Não havia espaço para um erro (...) Tínhamos de livrar a pátria do caos de Allende e do câncer marxista", argumentou.
Apesar disso, "Pinochet é o único que afirma que estava planejando o golpe há muito tempo", acrescentou o cientista político, Patricio Navia, professor adjunto da Universidade de Nova York. "Se todos estão de acordo, menos Pinochet, fica claro que, além de traidor, é um mentiroso", concluiu o analista.
AFP - Todos os direitos de reprodução e representação reservados. Clique aqui para limitações e restrições ao uso.