A polícia secreta de Pinochet: 16 anos de terror


A polícia secreta da ditadura de Augusto Pinochet, a Dina e, depois, CNI, foi um tipo de Gestapo ou Stasi chilena que chegou a ter 60 mil homens, entre eles agentes, informantes e integrantes de redes no exterior. Após sua criação em 1974, a Dina foi chefiada por Manuel Contreras Sepulveda, hoje com 74 anos, que antes disto tinha liderado o regimento de boinas verdes responsável pela tortura e assassinato de opositores.

A Comissão Rettig, encarregada da investigação dos crimes do regime, estabeleceu que a maior cota de assassinato de opositores (mais de 3 mil) foi cumprida pela Dina. A polícia secreta também foi culpada em 1976 pelo assassinato do ex-ministro das Relações Exteriores de Salvador Allende, Orlando Letellier, executado pelo americano Michael Townley, agente da sinistra entidade, rebatizada CNI pouco depois.

Nenhum detento da Dina escapou de torturas, garante o ex-deputado Andrés Aylwin. "A mais comum de todas era encapuzar os presos com um saco de plástico até seus olhos ficarem como ovos fritos", lembrou o ex-agente Osvaldo Romo, um civil contratado por Contreras entre allendistas arrependidos. As torturas "são mentira dos comunistas", repetia Contreras.

A Dina-CNI possuia prisões secretas, mantinha os presos pelo tempo que queria, e só prestava contas a Pinochet. Atuava dentro e fora do país, inclusive para eliminar dissidentes exilados na Europa ou nos Estados Unidos.

Além do assassinato de Letellier, a Dina foi acusada de ter matado o ex-comandante-em-chefe do Exército chileno, Carlos Prats, na Argentina em 1974, e de ter tentado assassinar em Roma no ano seguinte o democrata cristão Bernardo Leighton.

No Panamá, as fachadas da Dina foram as empresas Panandina, Terranova, Cronte e Entrecostera, criadas em 1976 com a ajuda do advogado Guillermo Endara, que seria mais tarde presidente do país. "Pedro Diet Lobos", empresa fachada da Dina no Chile, tinha como sócio Augusto Pinochet Hiriart, então capitão militar, filho do ditador.

Townley, acusado nos Estados Unidos pela morte de Letellier, afirmou que cumpriu as ordens de Contreras. Contreras repetia que obedecia somente a Pinochet ("com quem tomo café da manhã todos os dias"), o qual se gabava de que nem uma folha se mexia sem que ele o ordenasse.

A empresa Ferrimar, suspeita de ligações com a hierarquia de Contreras, tentou vender bombas ao Irã, enquanto outra empresa chilena (Cardoen) fazia o mesmo no Iraque, durante a guerra entre as duas nações árabes. O Plano Condor, encarregado da coordenação da repressão de opositores nos anos 70, foi proposto por Contreras.

A Dina-CNI cometeu "um único grande erro: permitir que muitos marxistas escapassem do país", admitiu Contreras. Pinochet destituiu Contreras em 1977, quando os Estados Unidos comprovaram que a morte de Letellier tinha sido ordenada pela Dina.

A entrega de Contreras aos Estados Unidos foi negada pela Corte Suprema, mas o líder da Dina-CNI cumpriu pena no Chile pelo assassinato de Letellier até janeiro de 2001. Nos seus anos de glória, Contreras tinha sido convidado à cerimônia de posse do presidente George Bush pai, ex-chefe da CIA, e chamava de "meu amigo" o segundo homem da Agência americana de inteligência na época, Vernon Walters.

Depois de Contreras, a organização teve quatro chefes entre 1977 e 1989, e nestes 13 anos sempre foi denunciada por abusos iguais ou piores que os do seu fundador. Em junho de 1987, um comando da Dina metralhou 12 jovens simulando combates de rua. O caso ainda está sendo julgado no Chile.

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