Allende, 1º marxista a chegar no poder pelas urnas

Salvador Allende discursa em Santiago durante a campanha presidencial Foto: Reuters
Salvador Allende discursa em Santiago durante a campanha presidencial
09 de setembro de 2003
Foto: Reuters

O ex-presidente chileno Salvador Allende entrou para a história da política mundial como o primeiro marxista a chegar ao poder através das urnas. Homem de profundas convicções, Allende suicidou-se antes de entregar o poder às forças do general Augusto Pinochet que deram o golpe de Estado em 11 de setembro de 1973. Naquele dia, aos 65 anos, tornou-se uma das primeiras vítimas da ditadura militar chilena, que durou 17 anos e deixou pelo menos 3 mil mortos ou desaparecidos.

Nascido em 26 de junho de 1908, no porto chileno de Valparaíso, Allende dedicou grande parte de sua vida à política, sua grande paixão. Seus primeiros contatos com a política aconteceram no colégio, quando conheceu o anarquista italiano Juan Demarchi, que lhe indicava livros. De acordo com seus amigos, "El Pije" (elegante), como era conhecido, já aos 15 anos de idade discutia política com a malícia de um veterano.

Estudou medicina na Universidade do Chile e, em 1927, foi eleito presidente do Centro de Alunos. Na mesma época, entrou para a maçonaria, seguindo uma tradição familiar. Dois anos mais tarde, participou da criação do Partido Socialista e aos 30 anos assumiu o cargo de secretário-geral do partido. Em 1937, foi eleito deputado e, logo em seguida, nomeado ministro da Saúde. Em 1945, foi eleito senador, cargo que ocupou durante 25 anos.

Antes de chegar à presidência, Allende foi três vezes candidato a presidente por seu partido. A vitória só veio em 4 de setembro de 1970, como líder da Unidade Popular, uma aliança que reunia socialistas, comunistas, radicais e outras correntes de esquerda. Com 36,3% dos votos, ele venceu Jorge Alessandri (34,9%), da direita, e Radomiro Tomic (27,8%), da democracia cristã.

Allende assumiu a presidência em 3 de novembro de 1970 e, durante seu governo, nacionalizou as minas de cobre, principal riqueza do país, que estavam nas mãos de companhias norte-americanas havia três décadas. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras agrícolas improdutivas e entregando-as aos camponeses.

Desde que assumiu o poder, Allende tinha em mente um projeto para construir um "caminho chileno para o socialismo". Assim provocou a oposição de direita e o governo norte-americano, que uniram suas forças para desestabilizar sua política. Essa resistência desembocou na paralisação do transporte e do comércio e em inúmeros atentados explosivos, que provocaram apagões e danificaram pontes e oleodutos.

Allende permaneceu mil dias no poder, mas foi derrubado pelos militares na manhã em que preparava um plebiscito para definir o futuro de seu governo. Suicidou-se na sala da presidência, com um tiro na cabeça de fuzil automático AK-47, presente do amigo cubado Fidel Castro. A arma trazia a uma frase dedicatória: "A meu companheiro de armas".

Antes de morrer, com o palácio presidencial de La Moneda em meio a um bombardeio aéreo, transmitiu sua última mensagem: "Eu não vou renunciar. Pagarei com minha vida a lealdade do povo. E, prevendo o momento que se aproximava, acrescentou: "Outros homens saberão superar este momento cinza e amargo onde a traição pretende se impor".

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