Um tribunal israelense condenou um antigo ministro da Justiça do País, Haim Ramon, ontem, por ter forçado uma jovem militar israelense a beijá-lo, em um caso de grande destaque que veio agravar a aura de escândalo em torno da liderança do País.
Depois do veredicto contra Ramon no tribunal da magistratura de Tel Aviv, surgiram fortes boatos de que o primeiro-ministro Ehud Olmert estaria se preparando para reformar seu gabinete. Ramon renunciou depois de ser indiciado, em agosto, e seus deveres foram assumidos interinamente pela ministra do Exterior Tzipi Livni. Com a condenação de Ramon, Olmert talvez procure por mudanças mais amplas, em uma tentativa de reconquistar apoio ao seu governo, que vem sofrendo uma série de escândalos e recebendo fortes críticas por sua conduta da guerra contra o Hizbollah, no Líbano, no terceiro trimestre do ano passado.
O tribunal promulgou seu veredicto uma semana depois que o presidente de Israel, Moshe Katsav, decidiu se afastar por três meses do posto, cujas funções são em larga medida cerimoniais, enquanto a promotoria do País decide se vai acusá-lo formalmente de estupro e agressão sexual. O Ministério da Justiça afirma que as acusações são prováveis, mas a promotoria ainda não chegou a uma decisão final. Katsav deixou sua residência oficial em Jerusalém e está morando no sul de Israel.
Processos contra figuras importantes por delitos sexuais são raros na cultura machista de Israel. Mas isso começou a mudar em 1998, quando uma lei de assédio sexual foi aprovada. Nos últimos anos, diversos casos do gênero ocorreram, entre os quais a condenação de Yitzhak Mordechai, ex-ministro da Defesa e Transportes israelense, por assédio sexual, em 2001. Ramon, 56, divorciado, foi acusado de forçar uma militar de 21 anos a beijá-lo em um escritório do governo, em 12 de julho, um dia depois que a guerra entre Israel e Líbano começou. Ramon afirmou que a mulher havia flertado com ele em uma festa do escritório, e que havia pedido para tirar uma foto em sua companhia. Os advogados do ex-ministro apresentaram uma foto dos dois posando abraçados para a câmera. Ramon admitiu o beijo, em seu depoimento, mas alegou que havia sido consensual.
No entanto, a militar depôs alegando que Ramon a beijara contra sua vontade, e o painel de três juízes aceitou essa interpretação. "Não foi um beijo de afeto", disse a juíza Hayuta Kochan, que leu o veredicto unânime. "O incidente tem todos os elementos de crime sexual". Fotógrafos e cinegrafistas cercaram Ramon quando o ex-ministro deixou o tribunal, em silêncio, acompanhado de sua namorada. Ele deve ser sentenciado dentro de três semanas, ainda que tenha anunciado ontem que apelaria. A pena máxima para esse tipo de delito é de três anos de detenção, mas os comentaristas de assuntos jurídicos israelenses consideram improvável que ele seja preso.
Ramon era parte do Legislativo israelense há mais de duas décadas, e foi uma das figuras de destaque no Partido Trabalhista, de centro-esquerda. Quando Ariel Sharon, então primeiro-ministro, deixou o partido Likud, conservador, e fundou o Kadima, de centro, no final de 2005, Ramon foi um dos legisladores trabalhistas que abandonaram sua legenda para acompanhá-lo. Sharon sofreu um derrame em janeiro de 2006, mas o partido recém-fundado conquistou a maioria nas eleições parlamentares israelenses em março. Ramon era visto como confidente e importante aliado de Olmert.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

- The New York Times
