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E quando começaram a ser realizados depoimentos em defesa do governo, as testemunhas muitas vezes se limitaram a dizer que continuavam a existir alguns cientistas que duvidavam dessa hipótese como explicação para a mudança de clima, ou que essa abordagem quanto ao problema não se limitava ao governo Bush. Selecionar causas ou interpretações científicas que se enquadrem às posições políticas ou estratégicas de um governo é prática que remonta pelo menos à presidência Eisenhower (1953-1961), disse Roger Pielke Jr., professor do Programa de Estudos Ambientais da Universidade do Colorado.
Ele disse que o comitê mesmo podia ser acusado de prática semelhante, e mencionou um comunicado à imprensa no qual a elevação na temperatura do oceano é apontada como causa das tempestades costeiras mais intensas e freqüentes dos últimos anos, uma conclusão que ele afirma ainda estar em debate.
Mas as demais testemunhas depuseram para informar de que maneira o governo havia retardado, alterado ou atenuado as conclusões oferecidas por cientistas que trabalham para órgãos federais, uma espécie de problema que eles afirmam não ter experimentado durante o governo Clinton. Drew Shindell, cientista da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) que disse estar falando apenas em seu nome pessoal, descreveu pesquisas conduzidas por ele e seus colegas sobre o desgaste da camada de ozônio e a presença de gases causadores do efeito estufa sobre a Antártida.
Shindell disse que suas conclusões ajudam a explicar o recente resfriamento registrado naquele continente, fenômeno mencionado pelos cientistas que dissentem quanto às causas do aquecimento global como base de interpretações alternativas às teorias dominantes. Shindell disse que, de acordo com os resultados de seu estudo, a Antártida poderia se aquecer rapidamente no futuro, derretendo o gelo e causando elevação dramática nos níveis oceânicos. Mas quando o governo decidiu distribuir o trabalho, afirma, a importância dessa conclusão havia sido minorada e as referências a um "aquecimento acelerado" descartadas.
Outra testemunha, Rick Piltz, diz ter renunciado ao seu cargo no Programa de Ciência sobre Alterações Climáticas do governo federal, em 2005, em protesto contra a atitude do governo, que segundo ele tinha por objetivo ¿impedir¿ a compreensão das questões de ciência climática pelo público e até pelo Legislativo. Parte de seu trabalho, disse Piltz, era compilar avaliações periódicas das pesquisas governamentais sobre o clima, e encaminhá-las ao Congresso. "O relatório quanto a isso foi essencialmente eliminado pelo governo Bush", disse.
A quarta testemunha foi Francesca Grifo, diretora do programa de integridade científica da Union of Concerned Scientists, uma organização privada que pesquisa sobre questões ambientais, de controle de armas e outras. O depoimento de Grifo tinha por base em larga medida um relatório produzido por sua organização e pelo Government Accountability Project, grupo privado que promove a fiscalização do governo pela sociedade e pelos funcionários públicos.
O relatório, divulgado terça-feira, se baseia em levantamento da organização de Grifo entre cientistas do clima empregados pelo governo federal, e em entrevistas e buscas de documentos conduzidas pelo Government Accountability Project. O texto afirma que era comum que cientistas fossem pressionados a eliminar referências a alterações climáticas, que seu trabalho fosse alterado de maneira a representar erroneamente as conclusões obtidas e que materiais relacionados à pesquisa do clima desaparecessem de sites federais.
Quase 60% dos cientistas que responderam à pesquisa disseram ter experiência pessoal com esse tipo de incidente nos cinco últimos anos, de acordo com o relatório, e aqueles que afirmam que seu trabalho estava mais diretamente relacionado às alterações climáticas passaram pela interferência mais intensa. (Informações sobre o relatório estão disponíveis em www.ucsusa.org.)
O deputado Darrell Issa, republicano da Califórnia, apontou que a maioria dos cientistas contactados não haviam respondido à pesquisa da organização. Grifo disse que atribuía essa reação ao "efeito dissuasório" das ações do governo. Ainda assim, afirmou, dezenas de cientistas reportaram problemas. "E o número deveria ser zero", ela disse.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times