"Tenho uma casa de praia em Cape Cod, e ela está equipada com acesso à Internet e TV a cabo. Uso um aparelho ReplayTV, parecido com o TiVo, para gravar os programas que acompanho, e depois de gravá-los ele se conecta ao meu computador, em Cape Cod, que copia o conteúdo. Então, copio o material do computador dos Estados Unidos para meu computador doméstico em Londres, e assisto aos programas em um televisor conectado a ele."
Se parte do que ele disse lhe parece incompreensível, com certeza você não está se mantendo em dia com relação aos avanços na tecnologia de televisão e de banda larga, que entre outras coisas estão ajudando os expatriados que apreciam TV a sobreviver com base em dieta bem mais substanciosa do que alguns episódios dos Simpsons em versão britânica.
Há muitos expatriados que sentem saudade semelhante ou até maior do que a de Lowry dos programas de TV que acompanhavam em casa. A nova tecnologia permite que os expatriados menos pacientes assistam aos seus programas favoritos em sua data de transmissão, em lugar de terem de esperar um ano ou mais pela exibição em um canal local.
Expatriados de todas as nacionalidades sentem saudades daquilo que lhes é familiar, quando estão longe de casa. Os expatriados franceses que gostam de sátiras tentam encontrar programas como Les Guignols de l'Info, um programa de marionetes que zomba dos políticos. Os latino-americanos procuram novelas em espanhol; os indianos querem filmes de Bollywood. Todos os expatriados desejam ver programas em seus idiomas de origem.
Karin Miller, alemã que vive em Londres, disse que um programa de TV de que realmente gosta é Who Wants to Be a Millionaire, mas não a versão original, em inglês. Miller gosta da versão alemã, Millionar, que não está em exibição no Reino Unido. "Gosto muito do apresentador da versão alemã; assistir ao programa aqui não é a mesma coisa", diz. "Tento assistir os episódios que perco quando vou a Hamburgo, mas o programa é semanal, e fica difícil acompanhar". Robin Pascoe, uma escritora canadense que é autora de diversos livros sobre os desafios que os expatriados enfrentam quando deixam seus países, diz que os programas de TV favoritos de uma pessoa são tão importantes quanto sua marca predileta de cereais matinais ou de manteiga de amendoim.
"Não há nada melhor do que assistir a um programa querido para relaxar, mesmo que por uma ou duas horas apenas, e amenizar o choque cultural da mudança", diz. Mas ela alerta os país de que é preciso ficar de olho nas crianças para que estas não fiquem "ligadas demais" na cultura de origem, via televisão, e por isso deixem de mergulhar na cultura local.
Lee Harrison, editor da International Living Magazine, uma publicação para expatriados, vive no Uruguai, e disse que, quando o assunto é televisão, os expatriados que vivem na região em geral podem ser enquadrados em uma de três categorias: cerca de 20%, diz, não assistem TV e pronto; outros 20% assistem aos canais locais, e talvez canais de cabo como a CNN e BBC, para acompanhar as notícias; os outros 60% podem ser classificados como telespectadores persistentes.
Para esse grupo, a TV é muito importante, especialmente por estarem longe de casa, e eles fazem qualquer coisa para obter seus programas. "Eles recorrem à DirecTV, se o serviço de cabo é insatisfatório", disse Harrison, em referência a um serviço de TV via satélite disponível para 15 milhões de latino-americanos. "Fui informado de que a cobertura da CNN International não é boa o bastante, para algumas pessoas, e que elas precisam obter a versão norte-americana", conta. "Elas também acompanham seus times favoritos. Um dado interessante é que os membros desse grupo raramente falam o idioma local".
Felizmente para eles, tecnologia como a das redes de troca de arquivos, a exemplo da BitTorrent, permite que baixem seus programas de TV favoritos diretamente. O ReplayTV é um aparelho que permite que os usuários gravem programas de TV em seu disco rígido para exibição posterior - uma espécie de videocassete melhorado, com mais capacidade e melhor reprodução.
Mas para pessoas que conhecem bem a tecnologia, como Lowry, há soluções mais simples e elegantes. Sites de redes de TV, como o bbc.co.uk, transmitem programas ao vivo na Web. Canais obscuros como o Asia Movie Channel são parte do incipiente setor de TV por protoloco de Internet (IPTV), e podem ser assistidos em um computador dotado de banda larga. O site de distribuição de vídeo YouTube é conhecido pelos trechos de programas de TV postados por seus usuários.
Ainda que assistir a um episódio de 24 Horas em trechinhos de 18 minutos não seja o ideal da maioria dos telespectadores, o site recebe 50 milhões de visitas ao dia. A iTunes Store, operada pela Apple, oferece episódios atuais de séries de sucesso como Lost e Desperate Housewives, que também atraíram grandes audiências fora dos Estados Unidos. O acervo já amplo da iTunes deve se expandir, com programação do Canadá e outros países, além da norte-americana.
Outro serviço que oferece um bom acervo de programas de TV é o Akimbo, com mais de oito mil títulos, entre os quais séries britânicas de comédia tais como Fawlty Towers. A assinatura mensal custa US$ 9,99 e dá acesso a quase todo o acervo, ainda que alguns programas custem mais caro. O Slingbox, aparelho da Sling Media, da Califórnia, também se tornou popular junto aos expatriados, porque permite transmissão direta via Internet de conteúdo armazenado em um computador ou gravador digital de vídeo. O aparelho custa entre US$ 180 e US$ 250, a depender do modelo.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Herald Tribune