Psicólogo usa urso para tratar "mulher selvagem"

24 de janeiro de 2007 • 11h46 • atualizado às 14h27

A "mulher selvagem", que passou 19 anos na selva cambojana e foi encontrada na semana passada, começou a interagir, a fixar o olhar e a demonstrar emoções após a primeira sessão com o psicólogo espanhol Héctor Rifa. O psicólogo da Universidade de Oviedo (Espanha), que passou 24 horas com a família da jovem no povoado de Oyadaw, disse hoje que a mulher "balbucia palavras, apesar de não serem compreensíveis, fixa o olhar de vez em quando, quando antes não o fazia".

"Consegui até fazê-la sorrir", comemorou. Rifa voltou hoje a Phnom Penh, a capital cambojana, com a intenção de repetir em uma semana a sessão com a moça, que se perdeu na selva aos 10 anos quando cuidava do gado. Na primeira sessão, o psicólogo realizou alguns testes com a jovem, usando objetos como um espelho e dois ursos de pelúcia, "com os quais dormiu abraçada esta noite", segundo Rifa. "Primeiro teve que se conhecer (diante do espelho). Apenas balbuciava e, quando meu reflexo apareceu no espelho, formou-se um vínculo. Trata-se de romper o isolamento, faça gestos e ela os copia", afirmou o espanhol.

Em nível sensorial, Rifa utilizou dois ursos de pelúcia "de diferente tamanho" para que - segundo o psicólogo - a jovem expressasse suas emoções, os acariciasse, "para que ela imaginasse que um é a mãe e outro o filho, ou o que quiser".

O espanhol acrescentou que "é muito importante que agora, na casa, tenha algo seu: seu espelho, seus ursinhos". O psicólogo também colocou música para a mulher ouvir, "apesar de não saber como a percebe", porque a jovem ficava agarrada ao rádio, de acordo com Rifa.

O espanhol acrescentou que Rochom Pngieng, como se chama a jovem de 28 anos, "já caminha de pé, a ponto de passear pelo campo, com a mãe, com a irmã". No entanto, o psicólogo afirmou que a jovem "tem a musculatura muito frágil".

Rifa demonstrou dúvidas quanto à primeira versão divulgada quando a jovem foi encontrada, de que andava de quatro e grunhia. "Pelo que a família me explicou, andava como os anciãos, encurvada pela fraqueza, e eu não a vi grunhindo". Para verificar o estado físico da mulher, Rifa chamou uma médica do serviço público de saúde, que fez exames na jovem e mediu sua pressão.

Em um dos testes, o fígado da "mulher selvagem" foi apalpado e, pelo resultado, foi descartada a hipótese de que sofra de "malária assintomática". "Ela não havia ido ao hospital, como queria uma ONG. Continua em casa se adaptando à comunidade", acrescentou Rifa, que afirmou que agora a jovem está se alimentando muito bem e que, com isso e com o exercício físico, "está se recuperando". O psicólogo, que mora em Phnom Penh, onde trabalha para a Universidade de Oviedo dirigindo um projeto da ONG Psicólogos sem Fronteiras, financiado pela Agência Asturiana de Cooperação Internacional, quer fazer outra sessão dentro de uma semana.

"Não se trata de eu ser parte da história", afirmou o espanhol, ao explicar porque não quis ficar com a família. "O que fiz foi induzir a mãe e um irmão, que são os mais ativos, para que eles continuem estimulando sensorialmente a menina, que está reagindo ao meio, para conseguir que em mais duas ou três sessões ela melhore, fique mais tempo feliz e sorridente e não como agora, que fica mais tempo com o olhar perdido", disse Rifa.

A história da "mulher selvagem" trouxe publicidade para o pequeno povoado onde vive a família e, segundo o espanhol, é constante o ir e vir de jornalistas e curiosos. O psicólogo não quer entrar na polêmica da verdade contida na história publicada a princípio por um jornal cambojano. "Eu tenho todas as dúvidas do mundo. Não tenho nenhuma prova de onde vem, o que fez estes anos, há coisas que não batem", afirmou.

"Prefiro não entrar no que haveria por trás. Prefiro focar na menina e em sua problemática, torná-la objetiva, científica", ressaltou. Segundo as primeiras versões, a jovem foi encontrada por lenhadores no dia 13 de janeiro, nua, desnutrida e sem capacidade para falar.

A "mulher selvagem" estava tentando roubar comida quando foi descoberta e foi identificada pelo policial Sao Loo e por sua mulher como a menina que havia desaparecido há 18 anos quando cuidava do gado.

À curiosidade natural pela história une-se a tradição das comunidades da região de fazer uma visita de cortesia quando alguém volta. Por isso, disse o psicólogo, chegam moradores com frutas e presentes para a jovem, que "está rodeada de pessoas que a olham, a tocam. A casa está sempre aberta".

Na casa, de apenas 25 metros quadrados, há 15 familiares, entre irmãos, tios e casais, que dormem todos no chão em esteiras, e entre os quais Rifa passou a noite.

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