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 Papa expressa seu respeito ao Islã e diz que foi mal interpretado
20 de setembro de 2006 12h20 atualizado às 13h49

O Papa Bento XVI expressou hoje seu "mais profundo respeito" ao Islã e "lamentou" novamente que suas palavras sobre Maomé tenham sido mal interpretadas, garantindo que não expressam seu pensamento e que pretendia convidar todas as culturas e religiões ao diálogo.

Três dias depois de expressar publicamente seu mal-estar pelas reações geradas no mundo islâmico, o Papa tocou hoje novamente no assunto, com a esperança - disse - de que após as críticas iniciais suas palavras na Universidade de Regensburg (Alemanha) "possam servir de impulso e estímulo para um diálogo positivo e autocrítico, tanto entre as religiões como entre a razão moderna e a fé dos cristãos".

Diante das 40 mil pessoas que assistiram à audiência pública das quartas-feiras na Praça de São Pedro, cercada por fortes medidas de segurança, o Papa falou sobre sua viagem de 9 a 14 de setembro à Baviera e disse que o discurso que fez na universidade na qual ensinou Teologia tinha como objetivo a relação entre fé e razão.

O Pontífice, que não poupou explicações, disse que, para introduzir o público em um tema "de grande atualidade", citou o diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo com um persa, no século XIV.

Na citação, o imperador, "de maneira incompreensivelmente brusca para nós", falava das relações entre religiões e violência, segundo o Papa.

Bento XVI afirmou que este diálogo, infelizmente, foi mal interpretado. "Para o leitor que acompanhou com atenção, meu texto deixa claro que não pretendia de maneira alguma me apropriar dessas palavras negativas pronunciadas pelo imperador medieval, cujo conteúdo polêmico não expressam minha convicção pessoal", acrescentou.

As palavras citadas pelo Papa e que geraram revolta no mundo islâmico, Manuel II Paleólogo pedia ao persa que "mostre o que Maomé trouxe de bom e verás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de divulgar a fé usando a espada".

Antes dessa frase, o Papa citou outra em que afirmava que no Corão não há nenhuma preocupação com "as coisas da fé".

Bento XVI disse hoje que sua intenção era "totalmente diferente" e que, partindo do que Manuel II Paleólogo dizia depois - "a violência está em contraposição com a natureza de Deus e com a natureza da alma" -, queria explicar que a religião segue em unidade com a razão, mas não com a violência.

O Pontífice ressaltou que o tema de sua lição magistral era a relação entre fé e razão.

"Pretendia convidar a fé cristã para um diálogo com o mundo moderno e com todas as culturas e religiões. Espero que nas diferentes ocasiões da minha visita tenha se visto claramente meu profundo respeito pelas grandes religiões e, em particular, pelos muçulmanos, que adoram um único Deus", disse.

Bento XVI acrescentou que os cristãos estão comprometidos com os muçulmanos na defesa e promoção da justiça social, dos valores morais, da paz e da liberdade.

Também disse que, durante sua viagem, ressaltou que o importante é respeitar o que é sagrado para os outros.

Desejoso de que esta nova explicação sirva para acalmar os ânimos do mundo muçulmano, o Papa reiterou sua confiança em que suas palavras impulsionem e estimulem um diálogo positivo e "também autocrítico", entre as religiões.

As palavras do Pontífice foram muito aplaudidas pelos presentes, que o acolheram neste momento difícil nas relações entre católicos e muçulmanos.

Bento XVI também lembrou que, durante sua viagem, denunciou que o Ocidente se tornou "surdo" à palavra de Deus, e reiterou que "uma razão que fica surda diante do Divino e rejeita a religião é incapaz de se integrar no diálogo das culturas".

A audiência foi realizada em meio a discretas, mas fortes, medidas de segurança, diante das ameaças feitas contra o Papa e os católicos por grupos fundamentalistas islâmicos, que consideram "intoleráveis" e "ofensivas" as palavras pronunciadas.

Bento XVI percorreu a praça no papamóvel, como em audiências anteriores, cumprimentando os fiéis, o que deu sensação de tranqüilidade.

No entanto, vários policiais italianos - encarregados de garantir a segurança externa do Vaticano - faziam a vigia a partir de terraços próximos.

O governador civil de Roma, Achille Serra, confirmou que as medidas foram reforçadas, informando que, "embora não haja uma ameaça específica, seria ilógico não levar em consideração a situação criada".

A Promotoria de Roma decidiu hoje investigar as ameaças feitas nos últimos dias contra o Papa, a Santa Sé e a cidade de Roma em sites supostamente vinculados a organizações terroristas islâmicas.

As investigações são coordenadas pelo responsável do grupo antiterrorista da Promotoria de Roma, Franco Ionta, e buscam verificar se estas ameaças podem ser consideradas crimes de incitação a atentado contra um chefe de Estado (o Papa Bento XVI) e a cometer ataques no Vaticano e em áreas limítrofes.

EFE
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