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 Muçulmanos reagem contra declarações do Papa
13 de setembro de 2006 17h14

As críticas feitas pelo Papa na terça-feira ao uso da violência em nome de Deus constituem até agora o aspecto mais destacado de sua visita à Alemanha, já que foram interpretadas como uma condenação ao extremismo islâmico e à guerra santa. Ante inúmeros cientistas, professores e personalidades eclesiásticas da Universidade de Ratisbona, o Sumo Pontífice, em aula magna, analisou a natureza da vontade do Deus do Islã e afirmou que o caminho do ser humano para a fé passa pelo discurso racional e nunca a violência.

"A vontade do Deus do Islã não está subordinada à razão", afirmou o Sumo Pontífice, que foi catedrático de teologia e história do dogma na Universidade de Ratisbona de 1969 a 1977. "A fé é o fruto da alma, não do corpo. Quem quiser conduzir alguém à fé precisa falar bem e argumentar corretamente ao invés de usar a violência e a ameaça", afirmou ele. "Não atuar segundo a razão é contrário à natureza de Deus". "Em compensação, para a doutrina muçulmana, Deus é absolutamente transcendental. Sua vontade não está ligada a nenhuma de nossas categorias, nem sequer à razão".

As palavras do Papa levantaram uma onda de interpretações que confluem na mesma direção. Dois religiosos confirmaram que se tratou de uma crítica ao extremismo muçulmano. "Deduz-se claramente do discurso do Papa uma crítica ao extremismo islâmico e à guerra santa", declarou o padre Karlheinz Bumb, de 60 anos, da paróquia de Frankenthal e ex-aluno universitário do Papa durante três anos.

"O Papa quis dizer que o Deus do Islã é o mesmo que os dos cristãos e dos judeus, o problema é concepção que alguns têm dele". O padre Felipe Fierro, de 55 anos, instrutor do Seminário dos Missionários da Reconciliação, em Lima, é da mesma opinião. "O Papa sabe muito bem que o Islã tem distintas vertentes e muitos centram sua doutrina na paz, mas outras têm uma configuração baseada na violência que alguns associam ao terrorismo", explicou.

O Vaticano tentou minimizar as interpretações em torno das palavras do Papa para evitar maiores repercussões. "Creio que o mundo todo entende que dentro do Islã há muitas posições diferentes e há posições que não são violentas", comentou nesta quarta-feira o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, que insistiu que alguns parágrafos de um discurso de meia hora não significam uma crítica severa ao Islã. "Certamente ele não queria dar uma aula, fazer uma interpretação do Islã como algo violento. Está dizendo que se interpreta de forma violenta a religião se esta está em contradição com a natureza de Deus e a natureza da alma", acrescentou.

Já a presidente de uma importante associação islâmica americana, Ingrid Mattson, recentemente eleita na direção da Islamic Society of North America (ISNA), considerou nesta quarta-feira que as críticas do Papa Bento XVI sobre o Islã eram "inexatas e oportunistas". "O fato de estabelecer uma conexão explícita entre o Islã e uma religião no coração da qual existe a violência é inexato e oportunista", declarou Mattson, entrevistada pela AFP.

Bento XVI citou uma frase retirada de um diálogo do século XIV no qual um imperador bizantino diz: "Mostre-me o que Maomé trouxe de novo, e verás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de divulgar pela espada a fé que pregava". "O Papa se aproveita do contexto político atual para tentar marcar pontos religiosos", prosseguiu, acrescentando: "Não está na hora de entrar nesse tipo de competição".

"O objetivo dos líderes religiosos deve ser de levar suas comunidades a valores melhores e mais elevados. Estou decepcionada", disse ainda Mattson, 43 anos, a primeira mulher eleita para presidência do ISNA, no início de setembro. A organização reúne nos Estados Unidos e no Canadá cerca de 20.000 membros e 350 mesquitas e centros islâmicos. "Se começamos a comparar a história da violência cometida em nome da Igreja católica e a cometida em nome do Islã, vamos demorar muito tempo", finalizou Mattson, aludindo à Inquisição, à Contra-reforma e às Cruzadas.

AFP
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