Ahmad Khatami, um importante clérigo do Irã, classificou o resultado dos conflitos como uma "derrota vergonhosa" para os EUA e Israel e prometeu que os iranianos disparariam mísseis contra Tel Aviv se fossem atacados. O presidente da Síria, Bashar al-Assad, afirmou que a resistência do Hezbolá à investida de Israel faria o Estado judaico pensar duas vezes antes de adotar "políticas terroristas" na região.
As declarações de Khatami e Assad apareceram um dia depois de o presidente dos EUA, George W. Bush, ter dito que o conflito no Líbano era "parte de uma luta mais ampla entre a liberdade e o terrorismo". Na batalha que opôs o aliado dos EUA (Israel) ao aliado do Irã (Hezbolá), o Estado judaico não conseguiu, com sua intensa campanha de bombardeios e com as investidas por terra, desarmar o Hizbollah, ou mesmo levar o grupo para além do rio Litani, a cerca de 20 quilômetros da fronteira.
O Estado judaico diz ter matado cerca de 530 membros da guerrilha ¿ o Hezbolá admite ter perdido 80 homens ¿ e ter destruído muitos lançadores de foguete. Mas os israelenses, cujas Forças Armadas sofreram 117 baixas e tiveram 450 de seus membros feridos, não conseguiram impedir o grupo de continuar disparando seus foguetes contra o norte de Israel e nem garantir a libertação dos dois soldados capturados pelo Hizbollah no dia 12 de julho.
"Isso expôs a fraqueza de Israel", afirmou Mustafa Alani, analista para questões de segurança do Centro de Pesquisa do Golfo, em Dubai. "Apesar de todo seu poderio militar, Israel não tem a capacidade de sustentar um conflito desse tipo. Desse ponto de vista, a estratégia do Hezbolá foi bem-sucedida", acrescentou.
Se o Estado judaico sofreu um revés militar, o governo Bush sofreu um revés político, argumentou Alani. "Isso mostrou que as intervenções iranianas estão produzindo resultados no Líbano e no Iraque", disse. "A mensagem é de que pressionar o Irã não será fácil. Se o país for atacado ou colocado sob sanções da ONU, ele pode cobrar um preço alto de outros".
O Irã, um país xiita, prometeu ampliar seu programa de desenvolvimento de combustível nuclear apesar de uma resolução recente do Conselho de Segurança da ONU exigindo que a República Islâmica abra mão desse programa até o dia 31 de agosto sob pena de sofrer sanções.
Impasse militar
Oussama Safa, do Centro Libanês para Estudos de Política, disse que, apesar de a guerra no Líbano ter prejudicado o moral de Israel e ter manchado sua imagem como potência militar, os foguetes do Hizbollah tampouco conseguiram deter a ação israelense e que a ameaça representada por eles era agora conhecida.
Mas Safa observou, de outro lado, que o fracasso de Israel em seus esforços para acabar com o Hezbolá levantava dúvidas sobre seu valor como aliado estratégico dos EUA. "Os iranianos abalaram em grande medida a imagem de Israel", acrescentou.
O Hezbolá pode ter conseguido aprovação em Teerã e em Damasco, mas também precisa traduzir sua resistência nos campos de batalha em ganhos internos. Dentro do Líbano, muitos cristãos, sunitas e drusos ficaram indignados com o fato de o grupo ter arrastado o país para uma guerra devastadora.
"O desafio agora é saber a dimensão da concordância sobre a implantação da resolução 1701 (do Conselho de Segurança)", afirmou Farid al-Khazen, um parlamentar cristão e cientista político. A resolução prevê que soldados do Líbano e uma força ampliada da ONU sejam enviados para o sul do rio Litani enquanto os militares israelenses se retiram. O Hezbolá não deve manter homens armados na região.
O líder do grupo, Sayyed Hassan Nasrallah, disse que seus homens vão cooperar com a colocação de soldados da ONU e do Líbano no sul, mas negou a possibilidade de o grupo se desarmar. "O plano do Hezbolá é fazer com que os combatentes e as armas não sejam mais visíveis, que fiquem de prontidão", afirmou Amal Saad-Ghorayeb, um libanês que estudou o grupo. "Isso não significa um desarmamento."
Fazer vistas grossas aos armamentos escondidos do Hezbolá pode não agradar Israel, os EUA e os países europeus apontados como possíveis líderes das forças da ONU ampliadas. Mas os conflitos do último mês provaram que ninguém poderá obrigar o grupo a depor suas armas. O fragilizado governo de Beirute, refém do sistema de divisão de poderes entre os grupos religiosos do país, pode querer ignorar a questão a fim de preservar uma fachada de unidade.
Se a trégua atual transformar-se em um cessar-fogo monitorado pela ONU, as forças israelenses e do Hezbolá não vão mais ficar frente a frente na linha fronteiriça, reduzindo as chances de os combates serem retomados.
Safa disse que a magnitude da destruição imposta ao Líbano por Israel significa que o Hezbolá teria de agir com cautela para preservar o apoio com que conta entre os libaneses e o governo de unidade nacional do qual participa atualmente, com dois ministros.
Mas Nasrallah não deve tolerar qualquer conversa sobre um desarmamento. Na segunda-feira à noite, em um discurso, o líder do Hezbolá afirmou que o grupo estava mais apto que o Exército do Líbano a resistir a Israel e que era "imoral" levantar a questão agora, questão essa capaz de despertar a ira dos xiitas.
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