Cubanos vivem primeiro dia sem Fidel em décadas

01 de agosto de 2006 • 15h06 • atualizado às 16h21

Cuba acordou hoje, pela primeira vez em quase meio século, sem a figura de Fidel Castro no comando do Governo, após uma longa noite na qual a população da ilha reagiu com calma à substituição provisória do líder da revolução. "É uma sensação muito estranha acordar pela primeira vez em 47 anos pensando que o homem que liderou a revolução entregou o poder", comentou um morador do bairro de Miramar, em Havana.

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Uma sensação similar - mistura de surpresa e incerteza - invadiu na noite da segunda-feira milhões de cubanos que ouviram atônitos a notícia de que Fidel entregara provisoriamente suas funções a seu irmão Raúl, apoiado pelos principais quadros do Partido Comunista de Cuba e do Governo.

O silêncio oficial mantido hoje na ilha sobre a evolução de Fidel Castro e a falta de detalhes sobre o caráter provisório da equipe liderada por Raúl Castro não contribuíram para acabar com as incógnitas. "Não é para menos, a questão é muito grave. Para que, em um país como este, ocorra uma cessão temporária do poder pela primeira vez na história, é que as condições devem ser ruins", opinou hoje um diplomata europeu. O mais significativo, segundo um observador estrangeiro, "é que acabaram as dúvidas sobre quem tem um papel realmente importante no futuro deste país".

Raúl Castro, de 75 anos, é acompanhado em seu novo trabalho pelo vice-presidente Carlos Lage, de 55 anos, o chanceler Felipe Pérez Roque, de 41, e o presidente do Banco (central) de Cuba, Francisco Soberón, de 62. Junto a eles estão três "pesos pesados" do birô político do Partido Comunista de Cuba: José Ramón Balaguer, de 74 anos, José Ramón Machado Ventura, de 76, e Esteban Lazo, de 62.

Na equipe liderada por Raúl, sucessor natural e legal, convivem representantes da "velha-guarda" e quadros mais jovens, embora com uma ampla experiência no Governo e no Partido. A grande incógnita, aponta outro diplomata ocidental, está nas características e na duração do período de Raúl Castro como interino. "Raúl não tem a mesma personalidade que seu irmão, e muitos esperam que ele seja mais pragmático. Mas precisará de tempo", afirmou o diplomata.

A reação dos Estados Unidos, principal inimigo do regime cubano durante mais de quatro décadas, também influenciará a evolução dos fatos em Cuba, apontou outro observador europeu. A calma que tem reinado em Cuba desde a noite da segunda-feira contrasta com o clima vivido em Miami, onde partidários de grupos anticastristas saíram às ruas com bandeiras e gritaram palavras de ordem contra o regime de Fidel.

"Por que não haveria normalidade aqui, se não aconteceu nada? Os que ficam nervosos são os de Miami. Aqui todos estamos tranqüilos porque está Raúl, que é como se ele (Fidel) estivesse", afirmou hoje um morador no bairro de El Vedado. "É lógico que o inimigo queira se aproveitar do mal do adversário, mas eles também não devem ter muitas esperanças, porque a revolução não é de um homem só e este povo está preparado para tudo", disse um motorista na capital cubana.

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