Europa

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02 de fevereiro de 2013 • 15h43 • atualizado em 04 de Fevereiro de 2013 às 08h43

Vodka pode ter ajudado a Rússia na vitória contra os alemães

Loja de bebidas alcoólicas em Moscou na década de 1950: teria a vodka ligação com as vitórias militares?
Foto: Three Lions / Getty Images

Uma das histórias (ou lendas) de guerra mais conhecidas mundialmente é a da derrota de Napoleão (1812) e de Hitler (1943) contra os russos devido ao rigoroso inverno do país. Os soldados franceses e alemães não estariam preparados para as temperaturas extremas do gigante branco e capitularam. Verdade ou mentira, a história é contada e recontada por estrangeiros e pelos próprios russos. Pouco se fala, no entanto, sobre uma outra coisa tipicamente russa que também pode ter dado uma ajudinha nas vitórias do país: a vodka.

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Em 1943, antes da ofensiva da União Soviética em Staligrando, o marechal russo Georgui Jukov informou a Stalin que, como as tropas não tinham anticongelante suficiente, estava sendo utilizada a vodka para impedir que a água dos radiadores congelasse. Com o aumento do uso de vodka para os carros, Stalin decidiu cancelar a distribuição da bebida para os soldados do combate, até então fixada em 100 ml diários. Ao mesmo tempo, o líder soviético resolveu premiar os melhores soldados. Como? Com 200 ml de vodka por dia.

Para os soldados que não se destacavam na linha de frente, a vodka só era distribuída em nove dias festivos durante o ano. A tática ajudou a aumentar a motivação dos soldados russos e o resultado já é conhecido de todos - a Rússia venceu a batalha contra os alemães.

Cento e trinta anos antes da vitória em Stalingrado, a vodka parece ter tido um papel importante na vitória russa contra outro inimigo: Napoleão Bonaparte.  O general francês e historiador Philippe-Paul de Ségur, que participou do enfrentamento com a Rússia em 1812, descreveu em seu livro que os soldados franceses estavam adoecendo e morrendo por beber vodka russa. “Nossos jovens soldados, enfraquecidos pela fome e o cansaço, achavam que esta bebida restauraria sua energia, mas o calor (da bebida) fez com que eles gastassem o resto de energia como em uma explosão e depois caíssem esgotados”.

Napoleão não menciona esta situação nos boletins da Grande Armada, mas de Ségur cita mais detalhes deste problema enfrentado pelos franceses. “Havia outros, ainda mais embriagados, que foram vencidos pelas tonturas ou sonolências e caíram em valas ou nas estradas. Seus olhos, meio fechados, aguados, viam a morte com indiferença. A morte tomou conta deles e morreram estupidamente, sem nenhum gemido”.

Como em qualquer guerra, há muitas coisas ainda pouco conhecidas sobre o cerco de Stalingrado. “Ainda é um tabu na Rússia falar sobre os desertores, por exemplo”, conta a professora de história da Universidade de Volgogrado, Ludmila Loviskaya. “Pelo menos 70 mil soldados russos passaram para o lado alemão durante a guerra. Eles não fizeram isso somente para desertar, mas muitas vezes pela simples promessa de melhores pratos de comida no lado ‘inimigo’”.

Segunda a professora, os livros de História falam do número de mortos, mas esta informação não passa a verdadeira ideia do que era estar em combate. “A gente costuma achar que as condições eram ruins, mas não paramos para refletir que a expectativa de vida dos soldados russos na guerra não chegava a 24 horas. Para os oficiais, três dias era uma média otimista”. Lovskaya cita ainda que canibalismo era comum pela falta de provisões e que ratos e cavalos mortos também iam para a mesa dos que lutavam no front.

“A política soviética do ‘Nem um passo atrás’, lançada por Stalin, saiu vitoriosa. Mas o custo do enfrentamento foi alto. Foram dois milhões de mortos dos dois lados somente na batalha de Stalingrado. A maioria dos russos e dos alemães tem um parente ou amigo próximo morto na guerra. Estes eventos deveriam ser usados para que tenhamos uma consciência histórica, em vez de inflar o nosso patriotismo”, conclui Loviskaya.

Especial para Terra