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Tradições pagãs da fertilidade e cristãs marcam Páscoa eslovaca

24 abr 2011
10h09
atualizado às 11h08

Vinte anos após o fim do comunismo, a Páscoa na Eslováquia é celebrada entre as tradições do cristianismo, incluindo tradicionais receitas culinárias, e os costumes pagãos alusivos à fertilidade. Alimentos como ovos cozidos, presunto cozido com sal, bolo com requeijão, pãezinhos com aipo, pasta de batata com queijo de ovelha, purê de arroz com manteiga e sorgo fazem parte do receituário tradicional das celebrações da Páscoa eslovaca.

Alguns são consumidos durante os dias de abstinência, já que com exceção da Quinta-Feira Santa, muitos católicos do país centro-europeu cumprem esse preceito religioso e não comem carne até o Domingo da Ressurreição.

Também se destacam as decorações das casas, que dão entrada a elementos da natureza - galhos e brotos de videira verdes e ovos ornamentais pintados à mão - quando esta recupera vigor com a chegada da primavera, que também fala da vida e é considerada símbolo da ressurreição. "Espero ansiosamente pelo presunto com sal, feito em casa da forma tradicional", disse Cyril Hamrak, capelão da Igreja de Santa Catarina de Alexandria, em Dolny Kubin, no norte do país.

O clérigo lembrou que é forte o costume de apresentar estes alimentos caseiros para serem benzidos no final da vigília de Páscoa ou durante a missa do Domingo da Ressurreição.

Entre os costumes pagãs mais difundidos, e que são festejados principalmente durante a segunda-feira de Páscoa, destaca-se o de jogar água fria - em pequena quantidade - sobre mulheres jovens. "Esse costume é para desejar que sejam bonitas e sadias. Os antigos eslavos o faziam para adorar divindades da floresta", afirmou o pastor evangélico Rastislav Stancek.

Além da água, em alguns lugares as moças recebiam leves golpes com varas de salgueiro como forma de desejar sorte, e em troca deveriam entregar um presente, como um pedaço de bolo. "Depois que os homens derramavam água sobre as meninas solteiras, elas os presenteavam com um ovo cozido, que é um símbolo pagão da fertilidade", explicou Stancek.

Também era costume enterrar nos campos as cascas dos ovos de Páscoa, para que fossem mais férteis. "Isso estava ligado à tradição que existia nas zonas agrícolas, onde antes de arar se rezava", lembrou também o pastor.

Eslováquia, terra de evangélicos luteranos também
A montanhosa cidade de Dolny Kubin, às margens do rio Orava, tinha 1,7mil habitantes em 1919, mas cresceu bastante durante o regime socialista tchecoslovaco (1948-1989) graças à indústria de componentes elétricos. Entre seus cidadãos mais conhecidos está o poeta Pavol Országh Hviezdoslav, um evangélico luterano, que promoveu a língua eslovaca nos tempos da "hungarização", quando a Eslováquia esteve submetida ao governo de Budapeste durante o período do império Austro-húngaro.

"À liturgia da Sexta-Feira Santa todo mundo vem. É a celebração que conta com maior presença, mais até do que a do Natal", disse Hamrak, o capelão. Em sua velha Igreja Católica de Dolny Kubin, hoje uma cidade de 20 mil habitantes, "serão batizados dez adultos na vigília pascal, embora os batismos não estejam reservados a esta época", acrescentou. Inclusive, dada a beleza da liturgia, "vêm inclusive alguns evangélicos e muitas pessoas não instruídas na fé", afirmou.

Mas o jovem capelão considera "alarmante" que 25% dos moradores locais se considerem ateus - há 2,5 mil evangélicos luteranos e os demais habitantes são católicos -, segundo dados do último censo. "São dias de moderação, tempo de jejum, para pensar mais em nós e refletir sobre o efeito do pecado", disse Stancek, que considera a Sexta-Feira Santa "a maior festa cristã".

Nesse dia, os evangélicos de Dolny Kubin têm um costume muito peculiar, que consiste em "ir confessar em jejum", explicou o pastor. Segundo ele, trata-se de uma liturgia especial, que não inclui o sacramento da penitência individual, já que os evangélicos só admitem os sacramentos do batismo e a confirmação.

EFE   

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