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Sarkozy se agarra a imigração e terrorismo para driblar rejeição

2 abr 2012
10h25
atualizado às 10h32
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Lúcia Müzell
Direto de Paris

Queda do poder aquisitivo, alta do desemprego, elevação dos impostos. Com um balanço de governo negativo no plano econômico - a maior preocupação dos franceses em tempos de crise na zona do euro -, o presidente conservador e candidato à reeleição Nicolas Sarkozy se esforça para trazer à tona os temas caros à direita, como imigração, segurança e terrorismo. Especialistas afirmam que esses argumentos podem ser os únicos capazes de levá-lo para um segundo mandato, nas eleições presidenciais que começam no próximo dia 22 e se encerram em 6 de maio.

Nicolas Sarkozy busca se reeleger calcado em assuntos como imigração e terrorismo, típicos da direita
Nicolas Sarkozy busca se reeleger calcado em assuntos como imigração e terrorismo, típicos da direita
Foto: AP

Ficou difícil para o presidente defender o próprio governo: ao final de cinco anos no Palácio do Eliseu, Sarkozy não conseguiu cumprir suas principais promessas de campanha em 2007, quando se elegeu às custas do slogan "trabalhar mais para ganhar mais" e jurava ser "o presidente do aumento do poder aquisitivo". O que se viu foi o contrário: o desemprego atinge 9,9% da população, o índice mais alto dos últimos 12 anos. Consequência direta, 337 mil franceses passaram à pobreza desde que ele foi eleito. O aumento do poder aquisitivo no país ficou bem abaixo do esperado, de apenas 2%.

Outra das principais promessas do presidente, a de reduzir a dívida pública da França para 60% do PIB, também foi para o ralo. A dívida, na realidade, explodiu durante o período: passou de 64% para 85,5% do Produto Interno Bruto francês. Para evitar um rombo ainda maior, os impostos foram aumentados, elevando o índice médio de tributação de 43,5% para 45% da renda dos franceses.

Os números ajudam a explicar por que Sarkozy é o presidente mais impopular da 5ª República francesa, chegando a atingir o recorde de rejeição de 20% de opiniões favoráveis em maio de 2011, com apenas 17% dos franceses considerando que ele faz um bom governo. O resultado é que a massa eleitoral responsável pela eleição do presidente em 2007, as classes modestas, tanto urbanas como rurais, que viam seu nível de vida se degradar, parecem não acreditar mais na sua palavra. De acordo com um estudo realizado pelo geógrafo Christophe Guilluy com o respeitado instituto de pesquisas Ipsos, desta vez esses eleitores apontam preferência pelo principal rival de Sarkozy, o socialista François Hollande - 28% de intenções de voto para o candidato socialista, contra 25,5% para o atual presidente.

"Essa França que acreditou em Sarkozy demonstra ser particularmente severa contra ele neste momento. Em alguns aspectos, como a falta de trabalho, a avaliação do governo de Sarkozy beira a rejeição completa", diz Teinturier, diretor do Ipsos. "Entretanto, é preciso ressaltar que essa parte da sociedade é também a que mais demonstra indecisão no voto, ou seja, as cartas estão lançadas e nesta altura da campanha, nada está decidido", afirma ele.

Drama de Toulouse
A situação desfavorável levou o conservador a empurrar o máximo que pôde sua entrada na corrida eleitoral, na expectativa de demonstrar a imagem de um chefe de Estado ativo e concentrado em diminuir a crise até os últimos instantes do mandato - a crise mundial, aliás, é o seu maior escudo para se defender sobre o desempenho bem abaixo do esperado na economia. Tão logo entrou em campanha, o presidente-candidato apostou as fichas na inserção, no debate político, dos temas tradicionais da direita: anunciou a intenção de reduzir pela metade o número de imigrantes aceitos em solo francês, exaltou os resultados em segurança pública do seu governo - embora baseado em estatísticas contestadas - e não hesitou em participar das polêmicas levantadas pela candidata da extrema-direita, Marine Le Pen.

Um exemplo foi quando Le Pen questionou a origem da carne consumida na França: segundo ela, 100% da produção francesa hoje seria obtida sob os rituais muçulmanos (carne halal), o significaria que a França estaria "se rendendo" ao islamismo, uma das principais bandeiras do extremismo de direita na Europa. Enquanto Hollande se recusou a comentar o assunto, Sarkozy chegou a visitar a maior atacado alimentício do país, em Rungis, e prometeu apertar a fiscalização sobre o abate de animais.

O último episódio em que pôde explorar as convicções de direita, o drama do atirador de Toulouse, marcou também a consolidação da recuperação da sua candidatura. Ao se mostrar como um presidente sem piedade contra o terrorismo, Sarkozy busca o apoio dos franceses que temem ataques e sabem que, neste aspecto, um governo de direita tende a fazer mais do que um de esquerda. Desde que o governo localizou e matou o extremista Mohamed Merah, autor de sete assassinatos em nove dias no sudoeste do país, as pesquisas de intenções de voto se mostram cada vez mais favoráveis para o presidente, embora ainda deem a vitória para o socialista, no segundo turno.

"Se Sarkozy conseguir implantar definitivamente na campanha as temáticas ligadas à segurança, ele terá, sim, mais chances de vencer. Este, aliás, sempre foi o maior temor da esquerda, pois sabe que nestas questões reside o seu ponto fraco", explica o cientista político Jean-Daniel Lévy, diretor do Departamento de Política e Opinião do Instituto Harris Interactive. Lévy analisa que, com a rápida solução do caso, finalmente "o presidente ajudou o candidato Sarkozy". "Mas ele precisa fazer isso com todo o cuidado, para os franceses não acharem que está se aproveitando de uma tragédia para tirar proveito eleitoral", diz Lévy.

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Fonte: Especial para Terra
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