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Simples e diplomático, Dom Damasceno representa a Igreja da América Latina

Com currículo vasto e sem polêmicas, o cardeal Raymundo Damasceno de Assis é conhecido pela facilidade com que se relaciona e resolve problemas

28 fev 2013
17h16
atualizado em 1/3/2013 às 14h52
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<p>O cardeal e arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno, em conversa com jornalistas</p>
O cardeal e arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno, em conversa com jornalistas
Foto: AFP

Há não muitos anos, Raymundo Damasceno de Assis encontrou Susana, filha de Dona Joana D’arc, sua antiga colega do Curso Superior de Teologia da Arquidiocese de Brasília.

“Ô, menina, te acompanhei desde sua crisma!”, exclamou Damasceno com alegria e jovialidade para a mulher cujos noivado, casamento, catequese e formatura pessoalmente celebrou. Contente pela lembrança e pela energia daquele que se fez presente em tantas importantes etapas de sua vida, Susana, ainda que atarefada e ocupada, convidou-o para uma janta em sua casa.

“Faça uma pizza que eu vou!”, propôs Damasceno, encaminhando o programa e resolvendo a preocupação de Susana de não ter muito tempo para uma comida mais elaborada.

Este rápido episódio, contado pela mãe de Susana, oferece um pequeno vislumbre da simplicidade alegre e diplomática que tanto chama atenção aos amigos de Dom Raymundo Damasceno, um dos cinco cardeais brasileiros que participarão do Conclave que, a partir do dia 15 de março, elegerá o Papa sucessor de Bento XVI.

Arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da Confederação Nacional dos Bispos (CNBB), Damasceno construiu ao longo dos seus atuais 76 anos de vida um currículo sólido de dedicação à Igreja e, em virtude das tantas experiências acumuladas, é um dos nomes do Vaticano que melhor representa a Igreja Católica no Brasil e na América Latina.

“Ele tem um jeito muito diplomático de se relacionar com as pessoas, ele é muito simples, uma pessoa alegre, de muito bom humor, de um trato muito fácil, com uma grande capacidade de congregar pessoas em torno de projetos que ele lidera. É um líder nato, com uma grande habilidade política”, resume Domingos Bisinotto, amigo brasiliense de longa data.

Juventude em Minas: a busca autônoma pela fé
Homem de “vocação muito pura”, como define seu primo Juarez, a caminhada de Raymundo Damasceno de Assis em direção à fé começou cedo. Quinta criança de um total de 10 filhos de Carmen Damasceno e Francisco Solano de Assis, Raymundo nasceu no dia 15 de fevereiro de 1937 em Capela Nova, pequeno município do interior de Minas Gerais.

“Uma família muito simples”, conta seu irmão mais velho Jairo, em uma época em que o Brasil, sob o governo Vargas, apenas começava o caminho para a industrialização. A vida era simples, e as brincadeiras, improvisadas. “Como criança, ele sempre brincou de padre”, conta Jairo.

Foi por iniciativa própria, e sem ideias ou pressão externa, que decidiu que iria estudar com os irmãos maristas na fazenda São José das Paineiras, em Mendes, no Rio de Janeiro. “Muito decidido”, lembra o irmão. “A iniciativa foi toda dele. Ele teve que ir para Carandaí pegar o trem, que um irmão marista ia passar lá. Tudo sozinho”. Era 1948 e Raymundo tinha pouco mais de 10 anos.

A experiência com os maristas lhe deu conhecimento e experiência, mas também acabaria por lhe forçar uma troca de rumo. Como fosse seu sonho ser padre, decidiu deixar São José das Paineiras depois de descobrir que, como Irmão, não teria o direito de celebrar missas.

“Quando ele chegou como irmão-mestre dos noviços, ele (Raymundo) falou: ‘se eu fizer os votos, eu posso celebrar?’ Aí o mestre de noviços respondeu: ‘Se o senhor quiser celebrar, o senhor tem que sair da congregação marista e procurar um seminário para padres’. Aí ele saiu”, conta seu primo Hélio. Era 1954, e Raymundo estava em seus 16 anos.

Àquela época, sua família já havia se mudado para Conselheiro Lafaiete. Raymundo foi para lá, onde ficou cerca de um ano. Neste período, aproximou-se da igreja local e angariou fundos para conseguir se mudar para Mariana (MG), onde, em 1955, entrou para o Seminário Menor. Lá, completou sua formação fundamental e cursou Filosofia.

Em 1960, foi convocado pela Arquidiocese de Brasília para ser o primeiro Seminarista da então recém-inaugurada Capital Federal. Era o início de um novo momento.

Damasceno com seus pais e conhecidos, em Capela Nova, na celebração de sua ordenação episcopal
Damasceno com seus pais e conhecidos, em Capela Nova, na celebração de sua ordenação episcopal
Foto: Prefeitura de Capela Nova (MG) / Divulgação

A vida desde Brasília: eminência e reconhecimento
A mudança para Brasília foi ponte para a experiência internacional. Em 1961, Dom Damasceno iniciou um longo período europeu, que incluiu estudos eclesiásticos na Itália, estágios com operários na Alemanha e uma passagem na França. De volta ao Brasil em 1968, foi ordenado sacerdote em 1968 em Conselheiro Lafaiete, mas seguiu sua carreira em Brasília.

A experiência no Velho Continente ajudou a aprimorar os conhecimentos linguísticos de Dom Damasceno, que hoje é fluente em espanhol, francês, alemão, italiano, lê latim e tem conhecimentos básicos de russo.

Joanna D’Arc, uma de suas tantas amigas na cidade, lembra com alegria da atuação de Dom Damasceno como padre. “Foi um pároco bem dinâmico, bem zeloso, inclusive ele visitava a casa dos paroquianos, meu marido ficou muito feliz com a visita dele, ficou amigo da família”, conta Joanna, hoje professora aposentada.

Ela cita como exemplo do trabalho de dedicado de Damasceno o aumento da comunicação entre a Igreja e os fiéis: visitava suas casas, buscava temas e menções especiais nas missas e convocava as pessoas, mandava cartas para as pessoas.

“Eu vejo esse modo cativante dele de procurar as pessoas que passaram pela vida dele como uma virtude muito grande. Pessoas que são muito ocupadas, mas têm tempo para os outros. Eu acho isso muito importante”, resume Joanna sobre o Raymundo.

Paralelamente ao trabalho na Arquidiocese de Brasília, Damasceno começou a lecionar no Departamento de Filosofia Universidade de Brasília em 1978, assumindo cadeiras ligadas à introdução e ao ensino dos temas filosóficos. “Foi sempre um professor muito competente, com uma excelente presença no departamento,” contra seu colega, amigo e professor Nelson Gomes.

Além da competência, seus colegas chamam atenção para a entrega com que assumia os trabalhos no departamento. O professor Nelson cita em especial a disposição do então padre em assumir as cadeiras de estágio de licenciatura, que envolvia deslocar-se com os alunos até escolas não raro muito distantes do centro de Brasília. “Damasceno sempre aceitou isso. Essa disponibilidade do Damasceno é uma disponibilidade digna de nota”, conta ele.

O professor Damasceno “fazia questão de assistir às aulas que a gente dava, fazia uma avaliação bastante minuciosa, reunia a turma. Era um professor bastante dedicado, bastante próximo”, conta o professor Agnaldo Portugal, à época aluno de Raymundo e hoje chefe do Departamento de Filosofia.

“Ele é um homem simples, acessível, que faz o trabalho que lhe é designado, seja ele qual for, e o faz de bom grado. E, sobretudo, é uma pessoa que conversa com todos, sempre com grande simplicidade. Ele é um homem acessível e realmente muito agradável”, resume o professor Nelson.

Filósofo tomista, bom conhecedor da obra de Santo Tomás de Aquino, “ele sempre foi um professor voltado para a formação intelectual de seus alunos”.

<p>Dom Damasceno em fotografia de 20 de novembro de 2010</p>
Dom Damasceno em fotografia de 20 de novembro de 2010
Foto: AFP

Maturidade espiritual: o cardeal Damasceno
O trabalho na UnB perdurou até o ano de 1986, quando o sacerdote foi ordenado bispo pelas mãos de Dom José Freire Falcão, então arcebispo de Brasília. “Ele tem uma capacidade muito grande de comunicar-se com as pessoas, durante todo tempo em que foi meu auxiliar e antes disso como padre, sempre alegre e feliz”, conta Dom José quando perguntado sobre suas impressões de Dom Damasceno.

“Ele é um diplomata nato”, conta o hoje arcebispo emérito da capital federal.

A diplomacia de Dom Damasceno é um dos traços mais lembrados por muitos de seus amigos, colegas e conhecidos. E sua habilidade de se relacionar e resolver questões de modo simples, aliado ao seu crescente conhecimento dos assuntos espirituais, fez-se cada vez mais presente à medida que Dom Damasceno passava a assumir cargos cada vez mais representativos da Igreja Católica.

Em 1991, ele foi nomeado Secretário-Geral do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), cargo que ocupou até 1995. Seguiram-se diversos cargos e funções no exterior, como a indicação pelo Papa João Paulo II para Padre Sinodal na Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos em Roma em abril de 1994. Ele também morou em Bogotá, Colômbia, quando feito membro do Comitê Econômico do Celam, em 1995. Neste mesmo ano, foi indicado para Secretário-Geral da CNBB, cargo que ocupou durante dois mandatos (1995-1999/1999-2003).

Em 2004, assumiu como quarto Arcebispo da Arquidiocese de Aparecida, posto que atualmente ocupa. Seguiram-se outros vários cargos na Celam e na CNBB, até que, em 2010, foi criado cardeal pelo Papa Bento XVI.

“Ele é um homem muito experiente e dedicado à Igreja”, resume o vasto currículo de Dom Damasceno o seu bispo-auxiliar de Aparecida, Dom Darci José Nicioli. “É bispo há mais de 25 anos e sacerdote há mais de 50. O Santo Padre o fez cardeal, e cardeal é o conselheiro pessoal do Santo Padre. Portanto, veja o nível de confiabilidade que ele tem na Igreja”, conta. “É muito respeitado enquanto homem de referência para a Igreja na América Latina e para a Igreja no Brasil.”

Tempo livre: amizade e família
Atualmente, Dom Damasceno mantém uma rotina de trabalhos em Aparecida, mas seu cargo de presidente da CNBB exige que viaje a Brasília quando a situação exige. Apesar disso, Dom Darci o vê como um pastor querido e presente.

“Ele é um homem muito simples. Cardeal da Santa Igreja e dado à comunicação com todos. É um homem muito prático e objetivo. Não dá voltas. É o jeito dele, a personalidade dele.”, resume Dom Darci.

Os amigos e conhecidos de Dom Damasceno não souberam dizer quais são os hábitos de lazer do tempo livre de Dom Damasceno, pois ele talvez simplesmente não disponha de tempo livre. “Acredito que ele não tenha muito tempo para leitura de lazer”, confessa Domingos Bisinotto, grande amigo de Brasília desde a década de 1970.

Placa da praçaa de Capela Nova em homenagem a Raymundo Damasceno, um de seus cidadãos mais ilustres
Placa da praçaa de Capela Nova em homenagem a Raymundo Damasceno, um de seus cidadãos mais ilustres
Foto: Prefeitura de Capela Nova (MG) / Divulgação

“Mas uma coisa que ele gosta muito de fazer é estar com seus amigos e numa conversa com os amigos. Ele é uma pessoa realmente dedicada a cultivar as amizades com as pessoas. Ele mantém aquela tradição mineira de uma boa conversa, uma reunião familiar”, resume Visinotto, que lembra a predileção de Damasceno por um bom pão de queijo mineiro.

Olhando para a vida do amigo e para o que o futuro pode lhe reservar, Domingos se admira com a simplicidade com que o amigo assume e executa aquilo que lhe é passado. “Ele sempre exerceu essas funções, que são de alta complexidade, com uma capacidade muito grande, com muita tranquilidade e segurança, muita simplicidade e de uma forma em que ele sempre se manteve querido pelas pessoas com quem se relaciona.”

Em 2012, Raymundo retornou mais uma vez ao berço natal de Capela Nova. Ao lado de parentes e da comunidade local, foi homenageado com a praça local, batizada segundo seu nome de cardeal.

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Fonte: Terra
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