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19 de março de 2013 • 16h16 • atualizado às 17h43

Jornal revela trechos de depoimento do papa Francisco sobre ditadura

Fragmentos do depoimento prestado em 2010 pelo então arcebispo de Buenos Aires foram publicados pelo jornal 'Clarín'

Trechos do depoimento do então cardeal foram publicados pelo site do jornal 'Clarín'
Foto: Clarín / Reprodução
 

Um vídeo revelado pelo jornal argentino Clarín mostra que o agora papa Francisco descreveu violências sofridas pelos padres ligados aos pobres durante a ditadura argentina (1976-1983). A gravação é do depoimento que o então cardeal Jorge Bergoglio prestou em 2010 como testemunha em um julgamento pelo sequestro de dois jesuítas.

"No final de 1975 e em 1976 percebi a preocupação normal de todos os padres que trabalhavam com esta opção (os pobres). Haviam matado Mujica, era uma referência indelével (...) e havia alguma violência a respeito de padres assim", afirma Bergoglio, ao depor em 8 de novembro de 2010. 

O então cardeal se referiu dessa forma aos assassinatos do padre Carlos Mugica em Buenos Aires nas mãos de um grupo de ultradireita em 1974, e do franciscano Carlos Murias e do padre francês Gabriel Longueville, cujos corpos foram achados crivados de balas em 1976, na província de La Rioja (noroeste de Buenos Aires).

Bergoglio depôs em sua condição de arcebispo de Buenos Aires como testemunha no julgamento pelos sequestros e torturas sofridos em 1976 pelos padres jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics, libertados cinco meses depois. Então chefe dos jesuítas em 1976, o Papa foi acusado por entidades humanitárias de não ter feito o suficiente para evitar as prisões.

Vaticano nega que papa tenha colaborado com a ditaduraClique no link para iniciar o vídeo
Vaticano nega que papa tenha colaborado com a ditadura

Clarín postou nesta terça-feira trechos da audiência de Bergoglio como testemunha em dois vídeos que duram 10 minutos no total, e antecipa que nesta quarta difundirá grande parte do depoimento, que durou 3 horas e 40 minutos.

No sábado, o Vaticano descartou de forma taxativa uma suposta cumplicidade do agora pontífice nos sequestros dos dois religiosos considerando-as "caluniosas e difamatórias". Já o autor da denúncia, o jornalista Horacio Verbitsky, reiterou, no dia seguinte, as acusações em entrevista ao jornal Página/12.

No depoimento, Bergoglio também se referiu ao bispo de La Rioja, Enrique Angelelli, assassinado em 4 de agosto de 1976, em uma ocorrência que a ditadura classificou de acidente de carro. Trinta anos depois, foi provado o homicídio em um processo no qual é julgado o ex-ditador Jorge Videla.

Perguntado no julgamento se havia se reunido com Yorio e Jalics por ser então chefe provincial da ordem dos jesuítas, o cardeal Bergoglio respondeu: "sim, e não só estive com os dois, como também com todos os jesuítas que trabalham nessa frente de ação com os pobres". "Era algo habitual que nos comunicássemos entre nós essas coisas para vermos a maneira de seguir atuando", acrescentou, dizendo ainda que os dois padres "sempre tomaram medidas de precaução".

Na semana passada, Jalics, de origem húngara e que foi viver no sul da Alemanha nos anos 1980, declarou-se em paz com o Sumo Pontífice a respeito desses fatos. "Não posso me pronunciar sobre o papel do padre Bergoglio naqueles sequestros", afirmou. "Deixei a Argentina após a nossa libertação. Depois, tivemos a oportunidade de discutir os fatos com o padre Bergoglio, que nesse meio-tempo se tornou arcebispo de Buenos Aires."

"Nós celebramos juntos uma missa pública. Estou em paz com o que aconteceu e considero a história encerrada", declara, acrescentando: "desejo que o papa Francisco receba as bênçãos divinas no exercício de sua missão."

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