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Francisco condena "lobby gay", mas evita julgar os homossexuais

29 jul 2013
12h19

O papa Francisco condenou nesta segunda-feira o chamado lobby gay" do Vaticano durante uma coletiva de imprensa improvisada a bordo do avião que o conduzia do Brasil de volta à Itália, na qual ressaltou que não pretende julgar os homossexuais.

"Nenhum lobby é bom", declarou o Papa, que considera que "não se deve marginalizar pessoas que precisam ser integradas na sociedade".

"O problema não é ter essa orientação. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lobby por essa orientação, ou lobbies de pessoas invejosas, lobbies políticos, lobbies maçônicos, tantos lobbies. Esse é o pior problema", disse.

"Se uma pessoa é gay e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la?", ressaltou.

Tratou-se da primeira coletiva de imprensa desde que foi eleito em março ao trono de Pedro, e foi dada depois de sua histórica visita ao Rio de Janeiro por ocasião da Jornada Mundial da Juventude.

Amável, divertido, mas prudente, Francisco respondeu às perguntas feitas por 15 jornalistas, sem se esquivar de nenhuma tema, tomando seu tempo para pensar em cada uma.

Questionado sobre o caso do "escandaloso caso de amor" entre o monsenhor Battista Ricca, nomeado pelo Papa Francisco recentemente a um cargo estratégico no banco do Vaticano, e um capitão da guarda suíça, como exemplo da rede no Vaticano por acesso a cargos de poder, o Papa admitiu que não tinha informações sobre esse controverso passado.

"Pedi uma breve investigação sobre ele e não encontramos nada contra", disse.

"Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um documento de identidade dizendo que é gay", brincou.

"O catecismo da Igreja Católica é muito claro e diz que não devemos marginalizar as pessoas que devem ser integradas na sociedade", acrescentou.

Ao abordar a sexualidade em geral dentro da Igreja, o Papa fez uma diferença entre crimes como o "abuso infantil" e os chamados "pecados da juventude".

"Leigos, padres, freiras, cometem pecados e então se convertem. Quando o Senhor perdoa, se esquece de tudo", acrescentou.

Questionado sobre o casamento gay e o aborto, duas questões as quais a Igreja se opõe com toda a sua força, o Papa respondeu de forma breve e seca.

"Todos vocês estão bem cientes da posição da Igreja sobre esta questão", concluiu.

--- Sem resistência contra reforma da Cúria ---

O Papa Francisco também declarou não ter sentido qualquer resistência em relação ao seu desejo de reformar a Cúria e defendeu seus colegas, apesar de reconhecer a existência de escândalos.

"Há santos na Curia, pessoas leais. E se existe resistência, eu ainda não vi. Eu faço justiça ao dizer isso", disse o Papa.

Francisco, que declarou sua vontade de reformar a Cúria e que não poupa críticas ao carreirismo e ao mundanismo, disse que prefere "um funcionário que diz: 'Eu não concordo com o que diz' do que aquele que diz 'está tudo' e que faz o oposto".

"Os cardeais que eu conheço não vivem em ambiente rico e suntuoso. Os que eu conheço são austeros. Eles vivem em pequenos apartamentos. Eles trabalham muito. Alguns vão anonimamente ajudar os pobres em seu tempo livre", ressaltou.

Questionado sobre o caso do arcebispo Scarano, preso por suposta corrupção, e sobre os escândalos em geral, o Papa argentino respondeu: "Uma árvore que cai faz mais barulho que uma floresta que cresce".

Mas "há alguns que fazem escândalo", reconheceu.

"A austeridade em geral é necessária a todos", disse ele, refletindo o que procura incutir no Vaticano.

O Papa argentino insistiu que não sabe como vai terminar" a reforma do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano, abalado por vários escândalos.

Ele citou três hipóteses: transformá-lo em um banco real (e não uma instituição de gestão de fundos), torná-lo um fundo mútuo, ou fechá-lo. Ele disse confiar na comissão que nomeou em junho.

Sobre o escândalo do vazamento de documentos confidenciais, o Vatileaks, sobre o qual Bento XVI deu a ele um dossier, alegou não ter ficado "horrorizado" ao lê-lo.

O Papa disse que "continua a pensar como um jesuíta", acrescentando, de forma irônica, sem ser "hipócrita".

Nesta segunda-feira o Vaticano anunciou que assinou junto com o governo italiano um "protocolo de acordo" para cooperar na luta contra a lavagem de dinheiro.

O acordo foi assinado em 26 de julho pela Autoridade de Informação Financeira (AIF) do Vaticano, dirigida por um suíço especializado em crimes financeiros, e por Roma pela Unidade de Informações Financeira (UIF) do Banco da Itália, segundo um comunicado da Santa Sé.

Bento XVI, e agora seu sucessor Francisco, decidiram colocar ordem no IOR, nomeando sucessivamente novos responsáveis e instaurando controles cada vez mais severos por este instituto, principalmente com a criação da AIF, no final de dezembro de 2010.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 

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