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Recebido por multidão na Bastilha, Hollande faz discurso de união

6 mai 2012
19h49
atualizado às 22h03
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Após fazer o discurso da vitória em sua cidade natal, Tulle, o presidente eleito da França, François Hollande, se dirigiu a uma multidão de cerca de 100 mil pessoas na Praça da Bastilha em Paris na noite deste domingo. No pronunciamento, o novo líder pregou união, questionou as medidas de austeridade em vigor na Europa e pediu a maioria nas eleições legislativas, marcadas para junho.

O novo presidente francês, François Hollande, foi recebido por uma multidão na praça da Bastilha, em Paris
O novo presidente francês, François Hollande, foi recebido por uma multidão na praça da Bastilha, em Paris
Foto: AFP

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"Eu não sei se vocês podem me ouvir, mas eu ouvi vocês. Eu ouvi a vontade de mudar, a força de vocês, a esperança", disse Hollande ao abrir o seu discurso. Assim como em seu pronunciamento em Tulle, o socialista também prometeu reparar as rupturas na sociedade francesa e reunir o país. "Trinta e um anos depois, há um sucessor para François Mitterrand", disse Hollande, se referindo à chegada ao poder do ex-presidente François Mitterrand, o último socialista a governar o país.

O candidato socialista François Hollande venceu as eleições presidenciais francesas com 51,67% dos votos válidos, com a apuração concluída - embora ainda sem incluir os resultados da votação no exterior. O atual presidente e candidato à reeleição, Nicolas Sarkozy, obteve 48,33%. Apesar do resultado definitivo só ter saído por volta das 20h (horário de Brasília), os simpatizantes Hollande já comemoravam a vitória após a divulgação da pesquisa boca de urna, às 15h.

Em Paris, Hollande também exortou seus simpatizantes a relembrar o momento para o resto de suas vida e reiterou as suas intenções de questionar as medidas de austeridade na Europa. Segundo ele, a vitória socialista na França é parte de um movimento que está se espalhando pelo continente.

"Vocês são muito mais que um povo que quer a mudança, são um movimento que se levanta por toda a Europa e, talvez, por todo o mundo para promover nossos valores, nossas aspirações e nossas exigências de mudança", disse. "Em todas as capitais, além dos chefes de Estado e de Governo, há pessoas que graças a nós têm esperança, nos olham e querem terminar com a austeridade", acrescentou.

Apesar da comemoração, Hollande já convocou o seu eleitorado a se mobilizar para as eleições legislativa de junho. "Também quero pedir que não abandonem a mobilização. Há muito o que fazer nos próximos meses, e para começar, dar a maioria ao presidente da República", disse Hollande, referindo-se às eleições legislativas de 10 e 17 de junho.

A Praça da Bastilha, local histórico para o país desde a Revolução Francesa, foi o palco onde há 31 anos a esquerda francesa celebrou a vitória do socialista François Mitterrand, presidente de 1981 a 1995.

A vitória de Hollande marca o retorno da esquerda à presidência da França, 17 anos após o fim do segundo mandato do ex-presidente socialista François Mitterrand, em 1995. Mitterrand - a principal inspiração do agora presidente eleito - foi sucedido pelo conservador Jacques Chirac (1995-2007), e depois por Nicolas Sarkozy (2007-2012), ambos do partido de direita União por um Movimento Democrático.

Mudança e reconciliação
O socialista informou à imprensa que passou uma noite "tensa" e estava ansioso durante o dia inteiro. Esta foi a primeira vez que ele concorreu ao Palácio do Eliseu e a sua vitória é o resultado de um esforço pessoal fora do comum: nas eleições anteriores, em 2007, ele era secretário-geral do partido e visto como um político sem liderança e pouco expressivo. Mas desde que deixou as rédeas do PS, em 2008, Hollande passou por uma verdadeira metamorfose: perdeu 10 kg, rejuvenesceu o visual, passou a moderar nas piadas irônicas pelas quais era conhecido e, principalmente, se colocou como a voz moderada e sensível do partido.

De encontro a um presidente que colecionava gafes contra as classes populares, em tempos de crise a França precisava de um homem que trouxesse de volta a conciliação. Com essa determinação, Hollande decidiu que a sua hora de concorrer ao cargo máximo da República tinha chegado. Coincidência ou não, a candidatura do favorito para disputar o Palácio do Eliseu pelo Partido Socialista, Dominique Strauss-Kahn, acabou ficando pelo caminho. A cinco meses das prévias que escolheriam o candidato, no ano passado, um escândalo sexual em Nova York pôs fim aos planos do ex-diretor do FMI, visto como o único capaz de vencer Sarkozy nas urnas. O desânimo tomou conta dos socialistas, que começaram a duvidar, mais uma vez, da capacidade de voltar ao poder.

Campanha sem falhas
Porém, uma vez escolhido pelos militantes, Hollande deu início a uma campanha sem falhas: bom de discurso, percorre a França inteira pedindo a mudança e tentando transmitir a confiança que faltava aos franceses. Alguns o chamam de "frouxo", outros, de "bonzinho demais". O próprio Sarkozy diz que Hollande é sem dúvida um homem inteligente, mas "que não sabe dizer não".

No entanto, o primeiro grande comício de campanha do socialista, em Bourget, na periferia de Paris, mostra que as mudanças não foram somente no visual. Diante da multidão, aparece um candidato firme, decidido e transbordando vontade política de reunir os franceses em torno dos valores republicanos, a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Essa determinação o acompanha durante toda a campanha, inclusive no esperado - e, sem dúvida, temido - debate cara a cara contra Sarkozy, visto pelo presidente como a oportunidade de ouro para reverter o quadro e, quem sabe, vencer as eleições.

No primeiro turno, as urnas confirmam a primeira façanha: jamais na história da 5ª República Francesa um presidente em exercício tinha ficado em segundo lugar no primeiro turno. Agora, os franceses confirmaram que querem sim a mudança tanto pedida por Hollande. Resta ao novo presidente provar que será capaz de, diante tantas adversidades, trazer de volta a França que tanto desperta admiração.

Com informações de Lúcia Müzell, direto de Paris

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Fonte: Terra
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