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Pró-supremacia branca, extrema-direita britânica vive ascensão

15 abr 2010
12h21
Lúcia Müzell
Direto de Paris

Embora jamais tenha conquistado qualquer espaço nos bancos do Palácio de Wesminster, a extrema-direita britânica, representada pelo Partido Nacional Britânico (BNP, na sigla em inglês), começa a se fazer perceber, inspirada pelo sucesso de seus colegas franceses, italianos ou holandeses.

Nick Griffin está à frente do Partido Nacional Britânico, que vem crescendo no Reino Unido
Nick Griffin está à frente do Partido Nacional Britânico, que vem crescendo no Reino Unido
Foto: AFP

A trajetória ascendente da extrema-direita no Reino Unido despertou definitivamente as atenções nas últimas eleições para o Parlamento da União Europeia, em 2009, quando conseguiu a proeza de eleger dois deputados, pouco tempo depois de ter dobrado o número de prefeituras na Grã-Bretanha e ter obtido pela primeira vez uma das 25 cadeiras da Assembleia de Londres - fato inédito para uma corrente política que existe há 30 anos mas que até hoje não conseguiu mais do que 0,7% dos votos nacionais.

O temor é que nas eleições gerais, convocadas para o dia 6 de maio, a sigla comandada por Nick Griffin siga aumentando suas conquistas e entre enfim no Parlamento britânico. A vitória não seria nada fácil, já que Westminster é tradicionalmente bipolarizado entre trabalhistas e conservadores através do pleito em um único turno e com vitória por maioria simples dos votos.

Por enquanto, a diferença mais perceptível da subida da extrema-direita no cenário político britânico é em relação à postura da própria direita, que, antenada com o recado da população, tem adotado um discurso mais populista, traço marcante dos extremos. As prioridades do BNP acabaram entrando na pauta do candidato conservador a primeiro-ministro britânico, David Cameron, que, no dia do lançamento oficial de sua candidatura, 6 de abril, prometeu criar uma polícia de fronteiras eficiente contra a imigração ilegal "excessiva" e dar mais atenção aos trabalhadores "que pagam seus impostos, obedecem às leis e são gente decente".

"O BNP continua sendo o instrumento de um voto de protesto. O seu futuro parece pouco promissor, porque os conservadores tem suficientemente habilidade para orientar os seus discursos em direção aos temas caros ao eleitores da extrema-direita, como bem mostrou Margareth Thatcher em 1979", explica David Hanley, especialista em partidos nacionalistas e professor de Estudos Europeus da Universidade Cardiff.

Ultranacionalista e defensor da supremacia da raça ariana, o BNP afirma em seu manifesto que deseja "acabar com o fluxo migratório não-branco e a restaurar pelos meios legais a composição majoritariamente branca da população britânica que existia no Reino Unido antes de 1948". Somente em fevereiro deste ano é que o partido teve um recuo e contrariou este princípio, passando a aceitar não-brancos entre seus filiados, numa medida que provocou viva polêmica na Grã-Bretanha. No auge das posições fascistas, a sigla também defende a supressão de toda a legislação anti-discriminatória e argumenta que a raça branca é superior por razões biológicas.

Agora, foco da discriminação é o povo muçulmano
Desde que a direção do partido passou de John Tyndall para Nick Griffin, o alvo dos nacionalistas também mudou. Assim como seus colegas de outros países europeus, o BNP acusa os imigrantes árabes e hindus de serem os responsáveis pelo aumento da criminalidade e do desemprego no Reino Unido.

Por conta disso, é nos bairros populares - onde imigrantes multiétnicos dividem espaço com britânicos ditos "brancos" - que o partido conhece o maior sucesso. Em algumas localidades, o BNP estaria até mesmo ocupando a segunda posição na preferência dos eleitores, logo atrás dos Trabalhistas.Mas essa não é a única razão do desprezo pelos imigrantes. Acolhedor, o governo privilegiaria os imigrantes nos programas sociais para promover a integração, o que provocaria o descontentamento dos britânicos. Segundo a Fundação Rowntree, o sentimento de impotência e estupefação face a essa acolhida preferencial do imigrante aumentam os escores do partido símbolo da luta anti-imigração.

"Somos um povo cristão e o Islã não é bem-vindo, porque Islã e Cristianismo, Islã e democracia, Islã e direitos das mulheres, nenhuma destas duplas combina. É um fato, e os europeus vão se dar conta disso e remediar este problema nos próximos anos", comemorou Griffin no momento da eleição de dois deputados BNP ao Parlamento europeu, onde vão defender suas posturas anti-União Europeia e em favor do restabelecimento das fronteiras nacionais.

O cientista político Matthew Goodwin, do Instituto para a Governança Política e Econômica da Universidade de Manchester, explica que essa centralização dos tema da extrema-direita europeia em torno dos muçulmanos não é uma coincidência. Os partidos extremistas funcionam melhor em rede - é inclusive comum de eventos de cada sigla contarem com a presença de representantes das outras. Para o BNP, o sucesso dos partidos de extrema-direita no restante da Europa ocidental através da bandeira anti-islamismo funciona como uma clara inspiração.

"A extrema-direita britânica está se espelhando no sucesso que os outros, como a italiana e a francesa, estão conseguindo. Eles estão seguindo a mesma estratégia de buscar ascensão através das eleições regionais e europeias, para depois poderem entrar no cenário nacional", avalia Goodwin. O especialista ressalva, no entanto, que o Reino Unido tem uma série de partidos regionais de extrema-direita, como o Partido Nacional Escocês, que apesar de focarem seus temas na imigração, não se enquadram no discurso anti-Islã da extrema-direita nacional. "Esses partidos se focam na invasão de um inimigo estrangeiro qualquer, não necessariamente muçulmano, e atendem assim as expectativas de um eleitorado regional."

Fonte: Especial para Terra

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